Getty Images
Ontem, na 81ª Assembleia Geral da ONU, o presidente americano Donald Trump disse que, de agora em diante, a expressão inteligência artificial deve ser substituída por outra: “superinteligência”. Vou fazer um comentário sobre esse evento, destacando 3 pontos: primeiro, a prepotência de se colocar no lugar de quem pode renomear o mundo; segundo, a ignorância no tráfico de condições de felicidade de um modo (político) sobre outro (científico); e terceiro, a defesa de uma perspectiva antropocêntrica, entendendo a relação do humano com o mundo a partir de um pensamento binário, natural-artificial. Esses três pontos revelam o estado atual da geopolítica mundial e os desafios do novo regime sociotécnico que desponta como disruptivo: a IA.
O argumento de Trump é que o termo inteligência artificial não dá conta da nova revolução, maior do que a industrial e até mais importante do que a internet, segundo o governante. Segundo ele, o termo “artificial” daria a conotação de falsidade, de algo inferior. Claro, o seu discurso situa-se no momento em que muitos líderes da Big IA (ecossistema de empresas que dominam o setor) pregam um freio para balizar modelos de segurança, por um lado, e do desenvolvimento rápido na China, por outro. Com medo de perder a corrida e de se transformar em um “loser”, fantasma narcísico que afeta a cultura americana, Trump não só diz que não vai parar, como também seu discurso se recheia de uma nova conotação valorativa: a IA seria uma “superinteligência”, pois é “super”, é “inteligência” e, mais importante, passa a ser nomeada por ele.
Vejamos.
Primeiro ponto. Donald Trump está com essa mania de dar nome e de trocar o nome das coisas. Toma para si o lugar do dono do mundo que nomeia todas as coisas. Nomos, raiz da palavra, significa não apenas lei, mas algo ligado à partilha, operando sobre uma comunidade, e é isso que ele quer com a nomeação: impor uma nova regra de atribuição das coisas sob seu domínio. Assim, Golfo do México seria Golfo da América, Lago Ontário, Lago América e, agora, inteligência artificial, superinteligência. Certamente, em pouco tempo, tentará transformar o nome do planeta Terra em “Planeta América”. Há aqui prepotência, mas também jogo político. Ao nomear ele cria uma realidade que lhe permite agir de acordo.
Segundo ponto. Ele propõe um termo que os cientistas já preveem, mas que ainda estaríamos longe de alcançar. Há hoje 3 fases no desenvolvimento da inteligência artificial: a primeira é a inteligência artificial estreita (narrow), na qual nós estamos, com a inteligência artificial generativa; a segunda é a inteligência artificial geral (general), que seria similar ao pensamento complexo humano; e a terceira seria a superinteligência, uma inteligência artificial ainda hipotética que superaria a inteligência e a criatividade humanas. Ela ainda parece ficção científica (ver meu ensaio anterior sobre o HAL). Trump não sabe disso e se arvora a definir termos no campo científico. Ele trafica assim a política, que é a sua intenção maior ao tentar dominar, inclusive discursivamente, esse novo campo tecnocientífico. Caberia aos cientistas esse debate. Trump não sabe do campo científico e não liga. O mesmo acontece com os negacionistas do clima que traficam um discurso político pela ciência ao afirmarem, sendo leigos, que o aquecimento climático não existe. Não têm competência para o debate, mas pouco importa. A negação não é pura ignorância, é jogo político: negar para manter os negócios como estão.
O terceiro ponto é a discussão sobre o artificial. Ele é o sintoma de uma relação que estabelecemos, de modo geral, com os artefatos, com os objetos técnicos. Tenho insistido nesse ponto nos meus trabalhos. O que está em jogo, de acordo com o argumento de Trump, sendo assim percebido pela grande maioria das pessoas, é a ideia de que o artificial seria falso e inferior ao humano. Que o humano, natural, seria maculado pelo artificial. Essa purificação do humano em relação aos artefatos aparece quando se argumenta que o perigo da IA é substituir a nossa inteligência natural por outra “artificial”.
Essa é uma péssima posição para começar o debate. Tenho insistido em apontar que o problema é criarmos uma ética da delegação. A inteligência é aquilo que emerge de um processo de hibridização entre potencialidades neurofisiológicas (de qualquer animal) e o mundo, com as coisas nas quais esbarra e as transforma. A nossa inteligência, assim como a de outros animais, é fruto desse processo híbrido. Não há, assim, inteligência “natural”, mas apenas a que emerge de processos artificializantes.
A inteligência artificial evolui a partir de uma linhagem de objetos técnicos que buscam a automação da informação, desde os primeiros ábacos, passando pela calculadora de Pascal e pelos primeiros computadores. A inteligência artificial é uma evolução dessa linhagem que tende à sua concretização. O que o Trump revela como sintoma é a posição equivocada do humano e dos fenômenos sociais, que separa o “sujeito” do “objeto”. Para entender a ambos, deve-se justamente evitar essa purificação. Nenhum dos polos existe sem o outro. O humano está sempre entrelaçado aos objetos.
Portanto, a inteligência animal é sempre gerada pelo encontro entre suas características neurofisiológicas e o artificial: encontro e fusão entre physis e techné. O artificial não é falso. Ele nos constitui. A realidade é uma ficção produzida a partir desse encontro ao longo da história (tomando os caminhos que assumiram no entrelaçamento).
A posição de Trump revela uma visão excessivamente antropocêntrica. Mas aqui está o interessante. Não é apenas uma visão dele, ignorante e politicamente enviesada. É uma visão compartilhada pelas pessoas e por grande parte das ciências humanas, como afirmaram, de forma crítica, diversos autores ao longo de suas obras (Latour, Haraway, Espinosa, Barad, Bogost...). Ela tende a negligenciar a parte dos artefatos. O termo proposto por Trump confirma a ideia do artificial como algo à parte, falso, ilusório, desviante. Muitas das discussões hoje estão centradas justamente nessa dicotomia entre uma inteligência humana natural e uma inteligência artificial que suplantaria a nossa. Ora, não há inteligência humana natural.
O último ponto é entender o que muitos cientistas têm apontado: a inteligência da inteligência artificial ainda não é tão inteligente assim. Os desenvolvimentos desses sistemas ainda teriam que percorrer um longo caminho para estabelecer uma relação complexa com o mundo (e chegar à noção de IA geral ou de Superinteligência, que não é a de Trump) que pudesse se equiparar, ou chegar próximo, à inteligência dos animais e, particularmente, à nossa. A IA ainda não é “inteligente”, mas logarítmica, estatística, conservadora, ao repetir o que está disponível no estoque de informação e conhecimento anteriores.
A proposta do Trump revela, em primeiro lugar, a prepotência em ser arvorar a nomear as coisas do mundo; em segundo, a arrogância de tornar o seu discurso político em uma proposta que pareceria vir do campo da ciência; e em terceiro, a reafirmação equivocada de um antropocentrismo que o faz parceiro de grande parte das ciências sociais e da percepção que as pessoas, no dia a dia, têm sobre o que é o humano (natural) e o artefato (o perigo do desvio e da falsidade), maculando a nossa verdadeira essência.
Esses três pontos revelam o desafio geopolítico e epistemológico global, com essa nova dimensão sociotécnica: a emergência da inteligência artificial generativa.


👏🏻👏🏻👏🏻