Olhar digital
No livro “O Colibri”, de Sandro Veronesi, em uma passagem no final, o narrador cita um trecho do Inferno de Dante no qual o poeta, ao encontrar almas invejosas, nota que todas têm os olhos costurados. Ele desvia o olhar. Como elas não podem vê-lo, ele também não deve olhar pra elas. Essa ação engaja uma ética que implica nos colocar em igualdade de condições com o outro.
Destaco aqui a questão do olhar na cultura digital. Ela está imersa nesse problema ético, pois estamos constantemente olhando pras telas e, muitas vezes, em detrimento das pessoas ao nosso lado. Não de forma incomum, quem está ao lado reclama atenção.
O olhar tem dimensões particulares em diferentes culturas. Olhar muito pode ser constrangedor; brindar e não olhar pode significar desprezo; olhar nos olhos pode significar intimidação… O certo é que olhar se realiza e se materializa em uma relação corporal, afetiva e coletiva. Ser é ser percebido, dizia o filósofo Berkeley. O olhar é uma das formas de perceber o outro.
Na cultura digital, tirar o olho da tela e focar nas pessoas é sinal de respeito, compartilhamento e atenção. Olhar pra tela pode significar timidez, busca por privacidade ou por segurança. Olhar para o mundo e captá-lo por meio de telas (fotos e vídeos) pode ser uma forma de evitá-lo. Apontei isso em outro comentário. Ir a um show e “assisti-lo” pela câmera de um celular é perder a oportunidade de se entorpecer, preso aos ditames do equipamento.
Na internet não há olhar compartilhado e, por isso, grande parte da relação que aí estabelecemos é considerada irreal ou virtual. Nas redes sociais não se vê o outro. A videoconferência simula o efeito de real do olhar, mesmo que as pessoas não estejam, de fato, se olhando. Há ainda o olhar captado e que não vê. É o olhar maquínico para o acesso, que não olha para os olhos, mas para Captchas (aquelas figuras em que temos que identificar objetos para entrar em um site) ou para câmeras de reconhecimento facial de empresas ou de dispositivos. Aqui o olhar é do vigia, da ameaça e do comércio: não vê pessoas, mas códigos. O olhar maquínico, que não envolve olhar pessoas, é como ataques com drones, que desrealizam, subjetivamente, a violência da ação (sem piloto), transferindo-a para a racionalidade militar-industrial.
É preciso olhar e ver. Interessante o trabalho do artista finlandês Tatu Gustafsson, que se faz fotografar por câmeras de vigilância, em solitário, em várias estradas da Finlândia. Ele perturba o olhar da máquina, fazendo-se ver quando o alvo do olhar maquínico são eventos disruptivos de segurança. Ele é visto e captado, mesmo que a máquina não o deseje. O artista transforma a sua solidão e insignificância em uma imagem destacada por um olhar ausente, chamando, a posteriori, a atenção do olhar humano.
Que estratégias adotaremos para um olhar mais humano e transformador para além das telas?
Feliz 2026.
PS. Os textos desta newsletter são destinados à elaboração dos meus comentários sobre “Cultura Digital”, de 3 minutos, na Radio Metrópole de Salvador. Este é o primeiro do ano.
