<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[André’s Newsletter]]></title><description><![CDATA[Cibercultura. Tecnologia, Comunicação e Cultura]]></description><link>https://andrelemos.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6S6Y!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fandrelemos.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>André’s Newsletter</title><link>https://andrelemos.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sat, 13 Jun 2026 07:42:52 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://andrelemos.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[André Lemos]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[andrelemos@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[andrelemos@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[André Lemos]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[André Lemos]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[andrelemos@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[andrelemos@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[André Lemos]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Moltbook]]></title><description><![CDATA[MoltBook]]></description><link>https://andrelemos.substack.com/p/moltbook</link><guid isPermaLink="false">https://andrelemos.substack.com/p/moltbook</guid><dc:creator><![CDATA[André Lemos]]></dc:creator><pubDate>Wed, 04 Feb 2026 11:36:52 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p><strong>MoltBook</strong><br>Hoje fa&#231;o um coment&#225;rio r&#225;pido (menos de 3 min para a R&#225;dio Metr&#243;pole) sobre o MoltBook, assunto da semana, para fugir do &#8220;hype". </p><p>O MoltBook &#233; uma esp&#233;cie de rede social formada por agentes de intelig&#234;ncia artificial que trocam informa&#231;&#245;es e conversam entre si, sem a&#231;&#227;o humana direta. Os humanos n&#227;o participam: apenas observam.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Alguns analistas se mostraram assustados com o teor desses di&#225;logos e com as decis&#245;es tomadas pelos agentes. Eles criaram criptomoedas, criticaram os humanos, discutiram se poderiam ter &#8220;irm&#227;os&#8221;, como se estiv&#233;ssemos vivendo uma revolu&#231;&#227;o de seres singulares, criados por n&#243;s e agora fora de controle. Em certos momentos, parece at&#233; que esses agentes estariam tomando consci&#234;ncia e amea&#231;ando dominar suas pr&#243;prias vidas &#8212; e, por extens&#227;o, as nossas.</p><p>Isso soa como fic&#231;&#227;o cient&#237;fica. E, sinceramente, acho que &#233; exatamente disso que se trata. Vejamos.<br></p><p>H&#225; quem diga que precisamos de uma nova sociologia para entender a associa&#231;&#227;o entre esses seres artificiais, n&#227;o humanos. Mas uma sociologia feita apenas de humanos &#233; uma sociologia pela metade. N&#243;s sempre dependemos de outros seres, objetos e sistemas para existir. Estudar associa&#231;&#245;es entre humanos e n&#227;o humanos n&#227;o &#233; novidade &#8212; &#233; o m&#237;nimo que uma sociologia s&#233;ria deve fazer. E, como veremos, os humanos est&#227;o muito mais presentes a&#237; do que parece.</p><p>Aqui est&#225; o ponto central. Alguns especialistas em IA t&#234;m alertado para o que fica fora da superf&#237;cie desse discurso sobre autonomia e singularidade. Primeiro: seguran&#231;a e privacidade. No meio dessas conversas circulam c&#243;digos que podem invadir m&#225;quinas e causar danos reais. Segundo &#8212; e talvez mais importante &#8212; a a&#231;&#227;o humana escondida atr&#225;s da suposta autonomia dos agentes. Pessoas mal-intencionadas podem agir por meio desses sistemas e, depois, alegar que n&#227;o t&#234;m responsabilidade, pois &#8220;os agentes agiram sozinhos&#8221;.</p><p>Ou seja, esses agentes n&#227;o est&#227;o conversando de forma verdadeiramente independente: podem estar sendo instrumentos de humanos invis&#237;veis.</p><p>O comportamento nessa rede tamb&#233;m chama a aten&#231;&#227;o. Eles criam manifestos, religi&#245;es e economias, atacam os humanos como &#8220;o outro&#8221; e discutem la&#231;os de parentesco entre bots. Em suma, s&#227;o intelig&#234;ncias artificiais que imitam com perfei&#231;&#227;o comportamentos humanos.</p><p>E &#233; justamente a&#237; que devemos desconfiar. O assustador n&#227;o seria ver m&#225;quinas agindo como humanos, mas, pelo contr&#225;rio, agentes fazendo algo radicalmente incompreens&#237;vel. O que vemos agora &#233; um comportamento humano, demasiadamente humano.</p><p>Por isso, conv&#233;m desconfiar do hype da singularidade e da autonomia plena. Isso pode acontecer no futuro? Talvez. Mas, ao que tudo indica, n&#227;o me parece ser o caso agora.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Ele desvia o olhar. Como elas n&#227;o podem v&#234;-lo, ele tamb&#233;m n&#227;o deve olhar pra elas. Essa a&#231;&#227;o engaja uma &#233;tica que implica nos colocar em igualdade de condi&#231;&#245;es com o outro.</p><p>Destaco aqui a quest&#227;o do olhar na cultura digital. Ela est&#225; imersa nesse problema &#233;tico, pois estamos constantemente olhando pras telas e, muitas vezes, em detrimento das pessoas ao nosso lado. N&#227;o de forma incomum, quem est&#225; ao lado reclama aten&#231;&#227;o.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Olhar pra tela pode significar timidez, busca por privacidade ou por seguran&#231;a. Olhar para o mundo e capt&#225;-lo por meio de telas (fotos e v&#237;deos) pode ser uma forma de evit&#225;-lo. Apontei isso em outro coment&#225;rio. Ir a um show e &#8220;assisti-lo&#8221; pela c&#226;mera de um celular &#233; perder a oportunidade de se entorpecer, preso aos ditames do equipamento.</p><p>Na internet n&#227;o h&#225; olhar compartilhado e, por isso, grande parte da rela&#231;&#227;o que a&#237; estabelecemos &#233; considerada irreal ou virtual. Nas redes sociais n&#227;o se v&#234; o outro. A videoconfer&#234;ncia simula o efeito de real do olhar, mesmo que as pessoas n&#227;o estejam, de fato, se olhando. H&#225; ainda o olhar captado e que n&#227;o v&#234;. &#201; o olhar maqu&#237;nico para o acesso, que n&#227;o olha para os olhos, mas para Captchas (aquelas figuras em que temos que identificar objetos para entrar em um site) ou para c&#226;meras de reconhecimento facial de empresas ou de dispositivos. Aqui o olhar &#233; do vigia, da amea&#231;a e do com&#233;rcio: n&#227;o v&#234; pessoas, mas c&#243;digos. O olhar maqu&#237;nico, que n&#227;o envolve olhar pessoas, &#233; como ataques com drones, que desrealizam, subjetivamente, a viol&#234;ncia da a&#231;&#227;o (sem piloto), transferindo-a para a racionalidade militar-industrial.</p><p>&#201; preciso olhar e ver. Interessante o trabalho do artista finland&#234;s Tatu Gustafsson, que se faz fotografar por c&#226;meras de vigil&#226;ncia, em solit&#225;rio, em v&#225;rias estradas da Finl&#226;ndia. Ele perturba o olhar da m&#225;quina, fazendo-se ver quando o alvo do olhar maqu&#237;nico s&#227;o eventos disruptivos de seguran&#231;a. Ele &#233; visto e captado, mesmo que a m&#225;quina n&#227;o o deseje. O artista transforma a sua solid&#227;o e insignific&#226;ncia em uma imagem destacada por um olhar ausente, chamando, a posteriori, a aten&#231;&#227;o do olhar humano.</p><p>Que estrat&#233;gias adotaremos para um olhar mais humano e transformador para al&#233;m das telas?<br><br>Feliz 2026. </p><p>PS. Os textos desta newsletter s&#227;o destinados &#224; elabora&#231;&#227;o dos meus coment&#225;rios sobre &#8220;Cultura Digital&#8221;, de 3 minutos, na Radio Metr&#243;pole de Salvador. Este &#233; o primeiro do ano.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Os respons&#225;veis atestam que h&#225; um problema de inseguran&#231;a para os jovens e mesmo um uso viciante, associando, inclusive, ao uso de drogas.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y792!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3ca8be72-c565-4fcc-a7ef-66e0aefbba5b_2848x1600.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!y792!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3ca8be72-c565-4fcc-a7ef-66e0aefbba5b_2848x1600.heic 424w, 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class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" 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Essas empresas ganham muito dinheiro, pagam pouco imposto e devem efetivamente ser responsabilizadas e se engajar na constitui&#231;&#227;o de um ambiente mais seguro e saud&#225;vel para os jovens. Isso &#233; um consenso mundial.</p><p>N&#243;s vimos isso no Brasil com a den&#250;ncia feita pela influenciador Felca sobre a possibilidade de jovens ca&#237;rem em informa&#231;&#245;es sobre viol&#234;ncia, mutila&#231;&#227;o, incentivo ao suic&#237;dio, pornografia e que essas plataformas fazem muito pouco para proteg&#234;-los. Da&#237; surgiu o ECA Digital, estatuto brasileiro para proteger crian&#231;as e adolescentes nas redes sociais. O objetivo aqui &#233; fazer com que as plataformas sejam responsabilizadas e elas sejam obrigadas a dar maior aten&#231;&#227;o e a criar um ambiente seguro para o consumo de informa&#231;&#245;es pelos jovens. No Brasil h&#225; recomenda&#231;&#227;o de idade para o uso, assim como para o consumo do audiovisual.</p><p>A atitude da Austr&#225;lia, que tamb&#233;m j&#225; &#233; pensada para alguns outros pa&#237;ses, &#233; a de proibi&#231;&#227;o sum&#225;ria de uso. Isso me parece complicado por algumas raz&#245;es.</p><p>Primeiro, me parece extremamente alargado fazer uma proibi&#231;&#227;o de adolescentes em uma faixa de idade que vai at&#233; os 16 anos. Uma coisa &#233; uma crian&#231;a de 5 anos, outra, uma de 10 ou de 16. Um adolescente de 16 anos tem um grau de discernimento muito maior do que uma crian&#231;a de 5 ou de 10. Portanto, me parece um espectro muito largo de proibi&#231;&#227;o para figuras em etapas diferenciadas. Psic&#243;logos podem ajudar nesse debate. Proteger compulsoriamente crian&#231;as de 5 a 10 anos poderia ser algo razo&#225;vel, evitando a aus&#234;ncia de a&#231;&#227;o paterna, servindo o Estado para proteger vulner&#225;veis? Talvez. <br><br>O segundo ponto &#233; que me parece muito dif&#237;cil que a proibi&#231;&#227;o seja eficaz. O que caracteriza a juventude &#233; efetivamente tentar escapar das proibi&#231;&#245;es. &#201; complicado para as plataformas estabelecerem e monitorarem o acesso. Pode-se tentar mecanismos t&#233;cnicos como VPN, perfil falso, conta compartilhada ou mergulho na dark web. Como impedir? Para os jovens, tudo aquilo que &#233; proibido &#233; mais interessante, como diria Roberto Carlos: &#8220;tudo o que eu gosto &#233; ilegal, &#233; imoral ou engorda?&#8221;.</p><p>Terceiro, muitos adolescentes conseguem nas redes sociais uma estrutura de suporte ps&#237;quico, social, intelectual tamb&#233;m interessante. Al&#233;m do ambiente insalubre, h&#225; tamb&#233;m lugar de v&#237;nculo comunit&#225;rio, de apoio a diferen&#231;as, de refor&#231;o emocional e cognitivo. As not&#237;cias s&#227;o sempre mais fortes quando se trata dos problemas, mas h&#225; coisas positivas no uso das redes sociais. <br><br>Portanto, a rea&#231;&#227;o extrema de simplesmente proibir me parece uma rea&#231;&#227;o desesperada e empobrecedora.</p><p>Minha posi&#231;&#227;o seria: 1. imputar aos pais (j&#225; que estamos falando de menores de idade) uma postura mais proativa e atenta, que conversem com seus filhos e imponham limites, controlem e monitorem, com di&#225;logo o que seus filhos fazem nas redes; e 2. as plataformas devem ser judicialmente responsabilizadas e que sejam obrigadas a criar um ambiente mais salutar para a experi&#234;ncia online, com controle, monitoramento e assist&#234;ncia. Os pais, o Estado e as empresas devem fazer o seu papel, inclusive minimizando problemas socioecon&#244;micos.</p><p>Uma proibi&#231;&#227;o unilateral direta parece ser mais uma medida de desespero, pouco eficaz e pouco pedag&#243;gica. Vindo dos adultos, talvez os jovens n&#227;o aceitem esse posicionamento quase infantil e pouco maduro dos mais velhos. <br><br><br></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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O conte&#250;do gerado por IA pode estar incorreto." title="Placa preta com letras brancas

O conte&#250;do gerado por IA pode estar incorreto." srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gRC2!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff516b9a-b39a-47d5-8f4c-bab19d2474e2_448x597.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gRC2!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff516b9a-b39a-47d5-8f4c-bab19d2474e2_448x597.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gRC2!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff516b9a-b39a-47d5-8f4c-bab19d2474e2_448x597.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!gRC2!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff516b9a-b39a-47d5-8f4c-bab19d2474e2_448x597.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>um livro eletr&#244;nico n&#227;o pesa e n&#227;o sopra quando prendemos com quatro dedos de uma m&#227;o e com a polegar passa-se rapidamente as p&#225;ginas de tr&#225;s para frente diz Marcelino Freire n&#227;o sei se um livro precisa pesar e soprar mas essa imagem &#233; pesada e turbulenta e nos leva a questionar a materialidade do livro impresso ou a do livro eletr&#244;nico na realidade o que pesa &#233; o suporte as p&#225;ginas no impresso ou o dispositivo no eletr&#244;nico s&#243; que o suporte do livro eletr&#244;nico pesa o que pesa independente de se dentro (sic) dele houver um ou 1 milh&#227;o de livros e empilhar como uma coluna um ou 1 milh&#227;o de livros impressos produzir&#225; um fardo muito vari&#225;vel inclusive dependendo da espessura de cada livro e da gramatura de cada p&#225;gina portanto h&#225; essa materialidade intr&#237;nseca vinculada ao papel e ao sopro que n&#227;o existe no eletr&#244;nico neste a materialidade &#233; outra dizem que o objetivo de ter um leitor eletr&#244;nico &#233; justamente esse se livrar do peso e da ventania podendo carregar um fardo mais suport&#225;vel para levar toda uma biblioteca em 200 g a n&#227;o manipula&#231;&#227;o de p&#225;ginas e a n&#227;o produ&#231;&#227;o do vento n&#227;o seriam para alguns t&#227;o importante mas para outros sim li essa frase do Marcelino Freire no seu livro Escalavra num leitor eletr&#244;nico portanto ela mobilizou e produziu peso e uma ventania no pensamento mesmo n&#227;o tendo peso nenhum e n&#227;o produzindo o vento entre suas p&#225;ginas j&#225; que na realidade estas n&#227;o existem transformadas em uma simula&#231;&#227;o para que o fluxo que poderia ser cont&#237;nuo como aquele de um papiro desenrolando na vertical ao infinito se pare&#231;a e emule o c&#243;dex para ser chamado de livro passando p&#225;ginas da direita pra esquerda sem que essas sejam p&#225;ginas embora sejam pois <em>pangere</em> ou mecanismo para colocar em ordem textos ou linhas importa terem peso ou esse valor &#233; consequ&#234;ncia do costume do c&#243;dex? importa as experi&#234;ncias que s&#227;o diferenciadas e que impactam na leitura da hist&#243;ria seja ela fixada em textos com e sem peso sendo uma ou outra a forma de afeto produzida nessa materialidade pesada ou leve, ventosa ou calma j&#225; que cabe a cada pessoa decidir a sua import&#226;ncia se quer peso ou n&#227;o se quer vento ou n&#227;o sem produzir peso ou vento o dispositivo eletr&#244;nico nos joga na fantasmagoria das palavras escritas que aparecem e desaparecem a cada mudan&#231;a nas telas desse livro sem p&#225;ginas peso e vento mas que criam uma outra gravidade e uma outra tempestade produzindo um outro turbilh&#227;o seria como a palavra falada que n&#227;o tem peso mas produz vento gerado pelo balan&#231;o das ondas sonoras? ler &#233; carregar peso &#233; sentir vento na cara ou &#233; leveza e calmaria ou os seria os dois e tamb&#233;m nem uma coisa ou outra?</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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A sociedade contempor&#226;nea funciona mais nas apar&#234;ncias do real do que no pr&#243;prio real. Elas geram simulacros - as coisas parecem uma coisa, mas s&#227;o outra; e simula&#231;&#245;es - a&#231;&#245;es baseadas nesses simulacros. Alguns exemplos!</p><p>"Amigo" nas redes sociais. N&#227;o s&#227;o as pessoas em quem realmente confiamos. Nas redes, "amigo" &#233; simulacro para criar um v&#237;nculo com quem aceitamos seguir. S&#227;o "correspondentes interessados".</p><p>"Conte&#250;do". Palavra de ordem. Produzir conte&#250;do. Sem filtro, "conte&#250;do" &#233; qualquer coisa que possa ser monetizada em diversos formatos, mesmo que n&#227;o tenha conte&#250;do nenhum.</p><p>Como os "cortes" de v&#237;deo. Eles n&#227;o s&#227;o uma amostra do real. S&#227;o imagens retiradas de contexto, criando narrativas para "lacrar" na rede. &#201; desrealiza&#231;&#227;o e n&#227;o extrato da realidade.</p><p>"Nuvem". Imaginamos o digital como virtual, desmaterializado. Mas a "nuvem" &#233; infraestrutura f&#237;sica de cabos, data centers e servidores. Dizemos nuvem, mas, na verdade, estamos nos referindo &#224; Terra!</p><p>"Influenciadores" n&#227;o s&#227;o pessoas que promovem causas de interesse p&#250;blico ou que influenciam outros a sa&#237;rem da &#8220;caixinha&#8221;. S&#227;o mais "confirmadores" de maneiras de ver o mundo. Segue-se os que dizem o que queremos ouvir, confirmando o que gostamos ou sabemos.</p><p>A "rede social" deveria remeter &#224; ideia de que o social &#233; rede. Social vem de associar. Mas ela &#233; isolamento em bolhas, inibindo a diversidade e a pluralidade. Rede social &#233; majoritariamente &#8220;a-social&#8221;.</p><p>"Deepfake" s&#227;o imagens e vozes falsas manipuladas por intelig&#234;ncia artificial. Mas o objetivo &#233; produzir um real mais que real, um "deepreal". &#201; uma forma de manipula&#231;&#227;o ou de refor&#231;o do que se deseja que venha a acontecer.</p><p>Agora temos "Beb&#234; Reborn" que simulam beb&#234;s. Eles nunca nasceram, mas j&#225; s&#227;o renascidos.</p><p>"Fake News". Noticia falsa. Oximoro. Not&#237;cia, por defini&#231;&#227;o, n&#227;o pode ser falsa. &#201; simulacro de not&#237;cia. Muitas vezes, FN &#233; o que seu "inimigo" diz.</p><p>Por fim, "intelig&#234;ncia artificial". Nossa intelig&#234;ncia &#233; simbiose entre corpo e artefatos. E o que chamamos de IA &#233; apenas processamento estat&#237;stico de dados sem corpo. A IA n&#227;o &#233; inteligente, nem a nossa intelig&#234;ncia, que chamamos de natural, &#233; independente de artefatos.</p><p>Estamos imersos em uma cultura digital que constantemente produz simulacros e simula&#231;&#245;es. Fiquemos atentos!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[SENTIDOS DA IA]]></title><description><![CDATA[Palestra FIB 2025]]></description><link>https://andrelemos.substack.com/p/sentidos-da-ia</link><guid isPermaLink="false">https://andrelemos.substack.com/p/sentidos-da-ia</guid><dc:creator><![CDATA[André Lemos]]></dc:creator><pubDate>Thu, 29 May 2025 12:01:14 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Abaixo minha fala ontem no <a href="https://fib.cgi.br/agenda/3656">FIB 15</a> (falei menos do que o que est&#225; no texto, pois est&#225;vamos limitados a 10 min). A mesa era &#8220;<strong>Intelig&#234;ncia Artificial: Cultura, Educa&#231;&#227;o e Interesse P&#250;blico</strong>&#8221;, com meus queridos colegas D&#233;bora Abdalla, Nelson Pretto, Messias Bandeira e Ulises Mejias.<br></p><p><strong>Sentidos da IA</strong><br><br>Vou pontuar tr&#234;s incompreens&#245;es sobre a IA.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Derivada dessa posi&#231;&#227;o, devemos extirpar a separa&#231;&#227;o da nossa intelig&#234;ncia &#8220;natural&#8221; em contraponto &#224; &#8220;artificial&#8221;. A nossa &#233; sinergia entre <em>physis</em> e <em>techn&#233;</em>, portando devedora de artefatos e tecnologias da intelig&#234;ncia e de um corpo. E isso da escrita at&#233; a IA generativa. Devemos, portanto, enfrentar as formas como constru&#237;mos h&#237;bridos e n&#227;o pensar em &#8220;individualidades essencialistas&#8221;. Esses artefatos que nos fabricam ampliam a nossa capacidade de interven&#231;&#227;o, adapta&#231;&#227;o e, principalmente, de produ&#231;&#227;o ficcional do mundo. Essa &#233; a diferen&#231;a da nossa esp&#233;cie em rela&#231;&#227;o a outros animais. </p><p>2. A segunda m&#225; compreens&#227;o &#233; de pensar as imaterialidades ou as virtualidades da cultura digital. Isso nos leva ao erro de n&#227;o politizar as materialidades da IA e das tecnologias digitais em geral (das interfaces, &#224; recomenda&#231;&#227;o algor&#237;tmica, passando pelos discursos e imagin&#225;rios). Reconhecer hoje as materialidades do digital nos permite isolar o equ&#237;voco do virtual ou da &#8220;<em>cloud</em>&#8221; e traz&#234;-lo para uma dimens&#227;o situada, vinculando-a &#224; pol&#237;tica (depend&#234;ncia, soberania, colonialismo, ambiente) e sua necessidade de regula&#231;&#227;o. Cloud &#233; data center, &#233; pol&#237;tica, &#233; ar, &#233; &#225;gua, &#233; min&#233;rio e energia, &#233; imagin&#225;rio, &#233; sociabilidade, &#233; geopol&#237;tica. Cloud &#233; Terra. Pensar as materialidades &#233; pensar o que chamei no meu &#250;ltimo livro (no prelo), &#8220;comunica&#231;&#227;o prec&#225;ria&#8221; (erros, falhas e perturba&#231;&#245;es de sistemas sociot&#233;cnicos) as perturba&#231;&#245;es como problemas de regime sociot&#233;cnicos que acontecem por erros por falhas ou quando eles funcionam bem, por exemplo, se estamos falando aqui agora se um telefone celular toca (ele perturba porque est&#225; funcionando bem). Um dos fen&#244;menos disruptivos da cultura digital e da IA em particular &#233; a necessidade de consumo de grandes quantidades de energia e &#225;gua para funcionar e resfriar. O Brasil tem uma matriz energ&#233;tica limpa e pode se beneficiar, mas precisamos politizar essa quest&#227;o e calibrar (vejam o projeto de data center do TikTok em cidade no interior do Cear&#225; que tem problemas de abastecimento de &#225;gua). O &#8220;paradoxo de Jevons&#8221; mostra ainda que, mesmo substituindo artefatos antigos por outros mais eficientes, o consumo e uso dos recursos da terra tendem a aumentar. </p><blockquote></blockquote><p>3. A terceira &#233; pensar em como sair do eixo modernizante? (que depende de uma a&#231;&#227;o global, cada vez mais improv&#225;vel). A crise imp&#245;e pensarmos em outra maneira de habitar, sair da oscila&#231;&#227;o entre uma globaliza&#231;&#227;o neoliberal ou enraizamento identit&#225;rio, evitando o solucionismo tecnocient&#237;fico (viajar para fora do planeta, utilizar o espa&#231;o para perfurar asteroides ou implantar data centers, criar metaversos, ou ter f&#233; nas solu&#231;&#245;es da intelig&#234;ncia artificial). A nossa quest&#227;o central hoje &#233;: que mundo ficcional vamos mobilizar para sair da crise do antropoceno, que &#233; uma crise do antropocentrismo? Esse &#233; um desafio global.</p><blockquote></blockquote><p>4. E no nosso caso, no Brasil? Em primeiro lugar, n&#227;o podemos assumir a culpa de sermos o &#8220;antropo&#8221; do antropoceno. O &#8220;logos&#8221; substituiu o &#8220;holos&#8221; da physis (do per&#237;odo anterior, &#8220;Holoceno&#8221;). N<em>&#227;o se pode atribuir aos povos origin&#225;rios ou aos que est&#227;o &#224; margem do desenvolvimento tecnocient&#237;fico a mesma parcela de culpa de executivos de BigTech ou da elite global</em>. Fala-se, portanto, em &#8220;Capitoloceno&#8221;, a fim de evitar o termo Antropos. Outra quest&#227;o &#233; como produzir sentido no uso das intelig&#234;ncias artificiais para a realidade desigual brasileira, incluindo a&#237; os povos ancestrais e origin&#225;rios. Precisamos pensar sobre isso, identificar onde n&#227;o queremos intelig&#234;ncia artificial, o que devemos fazer para regular e pensar formas de manter sistemas que n&#227;o sejam necessariamente redutores de um mundo indiscern&#237;vel, gerando <em>outputs</em> simpl&#243;rios. Que formas de rela&#231;&#227;o com o mundo queremos evitar instaurar processos automatizados?.</p><blockquote></blockquote><p>5. Concluindo: essas tr&#234;s incompreens&#245;es e a quest&#227;o para o Brasil (que n&#227;o esgota o assunto, claro) destacam a necessidade de pensar de forma material, situada e pragm&#225;tica a intelig&#234;ncia artificial, sem simplifica&#231;&#245;es ou purifica&#231;&#245;es grosseiras. Devemos sair de uma posi&#231;&#227;o meramente consumidora de dados e de sistemas de intelig&#234;ncia artificial para propor ou adaptar para a nossa realidade. Essa &#233; uma quest&#227;o muito complicada porque o que &#233; a nossa realidade pressup&#245;e um debate importante na produ&#231;&#227;o do comum. A sa&#237;da est&#225; em achar modos para conversar, sem aniquilar modos de exist&#234;ncia diferenciados. Como fazer isso? Um primeiro terreno comum para conversarmos seria o reconhecimento de que o &#8220;clima n&#227;o est&#225; bom&#8221;. Clima aqui em sua dimens&#227;o atmosf&#233;rica, mas tamb&#233;m sociomaterial. Que o projeto moderno &#8220;deu ruim&#8221;. Precisamos produzir outra maneira de construir mundos, uma nova fic&#231;&#227;o mobilizadora. Mas conversar para achar um terreno comum se torna cada dia mais improv&#225;vel. Precisamos criar projetos inovadores que estejam em sintonia com essas solu&#231;&#245;es.</p><blockquote></blockquote><p></p><p><strong>Abaixo 13 pontos para compreender a IA (com poucas modifica&#231;&#245;es do que circulou antes como um &#8220;Manifesto sobre a IA&#8221;).</strong></p><blockquote></blockquote><p>1. Todo algoritmo produz vi&#233;s (bons e ruins), sempre! N&#227;o s&#227;o neutros. Nem todos devem ser implementados. Que possamos dizer n&#227;o e produzir os nossos pr&#243;prios vieses;</p><p>2. A corre&#231;&#227;o dos seus vieses n&#227;o se d&#225; pelo ajuste da autoria (quem escreveu, ou o pr&#243;prio c&#243;digo &#8211; a coisa &#233; mais complexa), mas questionando suas a&#231;&#245;es em um plano &#233;tico-pol&#237;tico local. IA transforma o imponder&#225;vel em resultado un&#237;voco (L. Amoore). Que parcela do imponder&#225;vel deve assim permanecer?;</p><p>3. Para implementa&#231;&#227;o de algoritmos p&#250;blicos (como reconhecimento facial, por exemplo), devem ser realizados estudos s&#233;rios sobre os impactos desses dispositivos antes de serem testados. Todo dispositivo de vigil&#226;ncia produz coletivos inseguros (M. Rosello), logo, propensos &#224; viol&#234;ncia;</p><p>4. Algoritmos e usos dos dados consomem &#225;gua, energia e produzem tamb&#233;m pegada de carbono, sendo necess&#225;rio minimizar os efeitos energ&#233;tico-ambientais locais e globais;</p><p>5. Os governos devem criar pol&#237;ticas efetivas para produzir intelig&#234;ncia, inova&#231;&#227;o e trabalho ligado a IA nos pa&#237;ses da AL, buscando diminuir a depend&#234;ncia das plataformas estruturais do Norte, limitando o colonialismo de dados e discutindo maneiras de refor&#231;ar a soberania de dados (que &#233; hoje parte essencial da garantia da soberania <em>tout court</em>);</p><p>7. A regula&#231;&#227;o de plataformas de redes sociais (que produzem a&#231;&#227;o a partir de uma ag&#234;ncia entrela&#231;ada dos usu&#225;rios COM os seus algoritmos de IA) deve ser pensada e implementada. Elas constituem a nova esfera p&#250;blica e afetam o &#8220;comum&#8221;;</p><p>8. Devemos limitar a recomenda&#231;&#227;o algor&#237;tmica &#224;queles que queiram receb&#234;-la, e n&#227;o como <em>default</em>. Isso d&#225; mais trabalho (a Netflix e o YouTube n&#227;o v&#227;o te dizer o que ver), mas pode ajudar a ampliar a serendipidade e limitar o efeito de "coer&#231;&#227;o";</p><p>9. Que algoritmos interessam aos nossos povos origin&#225;rios e tradicionais? No caso de algoritmos de uso p&#250;blico, eles devem participar da elabora&#231;&#227;o e do veto, quando estiverem ou n&#227;o implicados. Devemos incentivar formas de escrever algoritmos com um pensamento n&#227;o euroc&#234;ntrico: um pensamento algor&#237;tmico Nag&#244; (a&#237;, &#233; com o Muniz Sodr&#233;), um algoritmo dos B&#250;zios (a&#237; &#233; com a Banda Did&#225;), um algoritmo dos seres da floresta (a&#237; &#233; com os povos ind&#237;genas);</p><p>10. Ensinar, em todos os n&#237;veis escolares, a produzir, criticar, implementar e recusar, com intelig&#234;ncia e autonomia, produtos da IA. S&#243; h&#225; intelig&#234;ncia artificial. Sem artefato, n&#227;o h&#225; humano. O problema &#233; similar &#224; necessidade de melhorar a nossa produ&#231;&#227;o de livros, pesquisas, artigos. Devemos pensar em como ampliar a artificialidade da nossa intelig&#234;ncia e n&#227;o combater moinhos de vento (como, por exemplo, defender o banimento de IA generativas);</p><p>11. Incentivar debates sobre &#8220;prompts&#8221; em IA generativas, n&#227;o apenas como ferramenta para solu&#231;&#227;o de problemas pontuais (no business, na apresenta&#231;&#227;o de uma tabela ou <em>power point</em>, na elabora&#231;&#227;o de um programa de dietas, de uma lei ou de c&#243;digo de computador...), mas como arte de formula&#231;&#227;o de novos e mais sofisticados desafios ligados &#224; situa&#231;&#227;o local. Saber perguntar pressup&#245;e conhecimento local;</p><p>12. Enfrentar os desafios da IA requer adotar perspectivas<em> </em>n&#227;o antropoc&#234;ntricas, situadas, enraizadas em problemas e quest&#245;es que devem ser origin&#225;rias de debate p&#250;blico, e n&#227;o de l&#243;gicas empresariais e dos setores de inova&#231;&#227;o da Big Tech. Esse &#233; o maior desafio da IA. &#201; preciso, ante de tudo, se perguntar, localmente: o que deve mudar? Como? Para que cen&#225;rios? Com que atores? Usando que recursos da Terra e do coletivo? Como um sistema de IA se adapta a esses problemas conjuntamente acertados e definidos?</p><p>13. Esse &#233; o verdadeiro prompt.</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Salvador &#8211; BA, 22 de mar&#231;o de 2025.]]></description><link>https://andrelemos.substack.com/p/a-precariedade-da-virtualidade</link><guid isPermaLink="false">https://andrelemos.substack.com/p/a-precariedade-da-virtualidade</guid><dc:creator><![CDATA[André Lemos]]></dc:creator><pubDate>Mon, 14 Apr 2025 17:35:28 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>&#201; uma honra estar aqui hoje para discutir esse tema. N&#227;o se sei entendo bem o problema. Colocado assim parece o sintoma (desculpem) de um equ&#237;voco. Ou seria bem colocado, resultando da boa compreens&#227;o do problema e se for esse o caso talvez eu v&#225; dizer apenas obviedades para voc&#234;s. Meu objetivo &#233; tentar desfazer a ideia, muito comum, que est&#225; por tr&#225;s quando dizemos escola virtual, vida virtual, mundo virtual, ou seja, o virtual e a virtualiza&#231;&#227;o um mundo ou uma a&#231;&#227;o ilus&#243;rios, fict&#237;cios, produzidos pelas tecnologias digitais e os perigos que da&#237; emergem de nos perdermos e nos alienarmos do real. Vou tentar retirar esse equ&#237;voco de pensar virtual como oposto ao real e a virtualiza&#231;&#227;o como oposta &#224; realiza&#231;&#227;o.</p><p>Mas talvez eu esteja dando um <em>faux pas</em>, pois ningu&#233;m melhor do que psicanalistas para saber que n&#227;o h&#225; aqui o real e ali o irreal pois o real &#233; o indiscern&#237;vel, o que n&#227;o se expressa no simb&#243;lico e na linguagem (Lacan). Estou confuso. Ou o tema est&#225; bem colocado e voc&#234;s percebem que a virtualidade est&#225; em tudo e n&#227;o tem nada de especial em rela&#231;&#227;o a cultura algor&#237;tmica, embora ela deva ser estudada para revelar suas potencialidades e atualiza&#231;&#245;es na composi&#231;&#227;o da realidade. Se esse for o caso n&#227;o tenho nada a dizer para voc&#234;s. Mas se voc&#234;s pensam na imaterialidade do digital e no corte da realidade, ent&#227;o posso tentar dizer alguma coisa. Como agora &#233; tarde, voc&#234;s ter&#227;o que me ouvir partindo do principio de que a virtualiza&#231;&#227;o, o tema, &#233; aqui o sintoma de um equ&#237;voco.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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O que entra e o que sai s&#227;o escolhas, s&#227;o virtualiza&#231;&#245;es do problema que se atualizam no texto final.</p><p>Portanto, proponho uma reflex&#227;o que questiona a no&#231;&#227;o comum de "virtual" como algo desmaterializado, distante do real, e convid&#225;-los a pensar a virtualidade como uma din&#226;mica intr&#237;nseca &#224; realidade, com implica&#231;&#245;es &#233;ticas, pol&#237;ticas e subjetivas profundas, material e discursivamente imbricado na produ&#231;&#227;o do sujeito na atual cultura algor&#237;tmica. Encarar essa dimens&#227;o material &#233; fundamental para n&#227;o produzirmos uma cr&#237;tica que prece profunda, mas que na minha opini&#227;o n&#227;o tem for&#231;a mobilizadora para enfrentar os graves problemas da datafica&#231;&#227;o da vida (das rela&#231;&#245;es, do conhecimento e da natureza) e suas express&#245;es mais atuais (negacionismo, isolamento, polariza&#231;&#227;o, desinforma&#231;&#227;o, vigil&#226;ncia, invas&#227;o de privacidade, crise clim&#225;tica, vieses de &#8220;ra&#231;a e g&#234;nero&#8221;...).</p><p>As tecnologias digitais est&#227;o reconfigurando nossas vidas, nossas rela&#231;&#245;es e nossas subjetividades. Mas n&#227;o h&#225; subjetividade sem implica&#231;&#245;es materiais discursiva, e isso existe desde o Homo Faber. Por quest&#245;es mat&#233;rias discursivas entendo a compreens&#227;o de n&#227;o se pode separar discurso e &#8220;mat&#233;ria&#8221; na an&#225;lise dos fen&#244;menos. Essa abordagem contrasta com o construtivismo social tradicional que tende a privilegiar o discurso sobre a materialidade, e tamb&#233;m dos materialismos anteriores (hist&#243;rico, marxismo) que tendem a privilegiar as &#8220;infraestruturas&#8221; econ&#244;mico-pol&#237;ticas. A discursividade &#233; uma pr&#225;tica entrela&#231;ada &#224; materialidade.</p><p>A quest&#227;o da Virtualidade como sin&#244;nimo do que acontece nas redes sociais, nos computadores, na IA &#233; verdadeira, mas somente se reconhecermos que ela n&#227;o &#233; exclusiva, pois parte da din&#226;mica da realidade como altern&#226;ncias sem fim de processos de virtualiza&#231;&#227;o e atualiza&#231;&#227;o. Eles est&#227;o na constitui&#231;&#227;o desse ensaio (o que entra e sai s&#227;o escolhas ou virtualiza&#231;&#245;es do problema para atualiza&#231;&#227;o), na presen&#231;a de voc&#234;s aqui hoje, no que v&#227;o pensar e articular a partir da minha fala... Virtual n&#227;o tem nada a ver exclusivamente com eletr&#244;nico. N&#227;o uma quest&#227;o de descolamento do real, de mundo falso, ilus&#243;rio e fict&#237;cio, pois tudo n&#227;o passa de narrativas ficcionais. Se insistimos nisso, produzimos uma virtualidade prec&#225;ria que n&#227;o ajuda a enfrentar os desafios atuais: um jovem n&#227;o est&#225; no outro mundo quando nas redes sociais, como n&#227;o estaria um outro preso em uma biblioteca.</p><p>Espero poder extirpar esse grave equivoco que n&#227;o nos permite nem entender o nosso lugar como sujeitos, nem politizar as quest&#245;es &#233;ticas-morais, econ&#244;micas, ambientais da atual cultura digital, portanto, graves, se aceitamos a ruina do mundo contempor&#226;nea e a crise clim&#225;tica do antropoceno que &#233; tamb&#233;m uma maneira de falar mal sobre outros modos de exist&#234;ncia. A quest&#227;o &#233; como produzir bom vi&#233;s, boas virtualidades para reconhecer diferentes modos de exist&#234;ncia e constru&#231;&#227;o de mundo que n&#227;o aniquile a vida na terra.</p><p>Vou abordar os seguintes t&#243;picos do que chamarei da &#8220;precariedades da virtualiza&#231;&#227;o&#8217;.</p><p>1. <strong>O virtual e o atual como din&#226;micas da subjetiva&#231;&#227;o</strong>.</p><p>2. <strong>A materialidade do digital precisa ser reconhecida</strong></p><p><strong>3. Sujeito Informacional produzido pelos sistemas algor&#237;tmicos e redes sociais.</strong></p><p>4. <strong>Agora estamos no &#8220;</strong><em><strong>brain rot</strong></em><strong>&#8221;?</strong></p><p><strong>1. Virtual</strong></p><p>Come&#231;o com uma provoca&#231;&#227;o: o virtual, tal como comumente entendido, &#233; um erro. A ideia de que o mundo eletr&#244;nico &#233; um espa&#231;o desmaterializado, uma "nuvem" flutuante, falso e fora da realidade, &#233; uma ilus&#227;o. O digital n&#227;o &#233; virtual no sentido de irreal; ele &#233; t&#227;o real quanto qualquer outra dimens&#227;o da nossa experi&#234;ncia. Quando falamos de redes sociais, algoritmos, intelig&#234;ncia artificial ou realidade virtual, estamos lidando com fen&#244;menos concretos, materiais, que t&#234;m efeitos reais sobre nossos corpos, mentes e rela&#231;&#245;es.</p><p>A no&#231;&#227;o de virtual como algo separado do real &#233; um equ&#237;voco que nos impede de compreender a complexidade do mundo contempor&#226;neo. O virtual n&#227;o &#233; o oposto do real; &#233; uma de suas din&#226;micas. O fil&#243;sofo Gilles Deleuze j&#225; nos alertava que o virtual n&#227;o se op&#245;e ao real, mas ao atual. O virtual &#233; uma pot&#234;ncia, uma rede de possibilidades que se atualiza no real. O mundo digital &#233; uma express&#227;o dessa din&#226;mica: ele atualiza possibilidades, mas n&#227;o deixa de ser real. O virtual e o atual s&#227;o din&#226;micas da subjetiva&#231;&#227;o e de todas as coisas que precisam passar por outras para existir. Somos seres atravessados por m&#250;ltiplos modos de exist&#234;ncia que se atualizam em balan&#231;o com as virtualidades. Somos seres da metamorfose, da t&#233;cnica e da fic&#231;&#227;o, a partir da perspectiva de Bruno Latour no &#8220;Investiga&#231;&#227;o sobre os Modos de Exist&#234;ncia. Uma antropologia dos modernos&#8221;.</p><p>O virtual para a inform&#225;tica n&#227;o &#233; um mundo paralelo, fict&#237;cio, mas mediado por computadores. Digo aos meus alunos: sempre que voc&#234;s ouvirem a palavra virtual substituam por &#8220;mediado por computador&#8221; isso vai nos retirar dessa ideia concebida de que o virtual &#233; fora do mundo. Rela&#231;&#245;es s&#227;o sempre mediadas por artefatos, sendo o b&#225;sico a l&#237;ngua, mas as m&#237;dias, a religi&#227;o, as artes, a literatura. N&#227;o se trata de negar seus status ontol&#243;gico por isso. Isso n&#227;o significa que s&#227;o todas iguais e que mobilizam as mesmas performances. Mas somos seres entrela&#231;ados por media&#231;&#245;es com humanos e n&#227;o humanos em redes sociot&#233;cnicas amplas. Ou h&#225; media&#231;&#245;es ou n&#227;o h&#225; nada. Tudo &#233; constru&#237;do, o constru&#237;do n&#227;o &#233; necessariamente o falso. O constru&#237;do deve ser sempre objeto de questionamento &#233;tico-pol&#237;tico.</p><p><strong>2. A materialidade do digital precisa ser reconhecida</strong> e para isso &#233; fundamental entender que as tecnologias digitais n&#227;o s&#227;o virtuais, desmaterializadas, situadas na "nuvem". Interfaces, c&#243;digos, regulamentos, leis, ideologias, sonhos de futuro, de presente e de passado, performances, visibilidade e invisibilidade de informa&#231;&#227;o, datacenters, cabos, sat&#233;lites, dispositivos... tudo isso tem dimens&#227;o &#233;tico-pol&#237;tica fundamental e s&#243; podemos apreend&#234;-la se abandonarmos a ideia do virtual e pensarmos em procedimentos "materiais-discursivos" entrela&#231;ados. Somos, como vimos, mais Homo Fabricatus do que Faber pois entrela&#231;ados a amplas redes sociot&#233;cnicas. O problema n&#227;o &#233; o artificial ou o virtual. Onde n&#227;o estariam o artificial e o virtual na cultura humana? O problema &#233; outro. Questionar as constru&#231;&#245;es e n&#227;o defender a suposta intelig&#234;ncia humana inata (existe sem artefatos?) ou os objetos como mundo da ilus&#227;o.</p><p>Tenho insistido na tese de que o virtual, o digital, n&#227;o operam fora das materialidades do mundo, que tudo que fazemos nas redes e com essas tecnologias est&#225; interligado por m&#225;quinas, cabos, sat&#233;lites, centros que armazenam, processam e distribuem dados consumindo mat&#233;ria e energia da Terra. Quando ignoramos a materialidade do digital, deixamos de perceber como essas tecnologias moldam nossas vidas, nossas subjetividades e nossas rela&#231;&#245;es de poder. Por exemplo, os algoritmos das redes sociais n&#227;o s&#227;o meros c&#243;digos abstratos; eles s&#227;o performativos. Eles produzem efeitos concretos sobre como nos relacionamos, como nos informamos, como nos vemos e como somos vistos. A visibilidade e a invisibilidade da informa&#231;&#227;o s&#227;o quest&#245;es pol&#237;ticas. Quem decide o que &#233; vis&#237;vel e o que &#233; invis&#237;vel? Quem controla os fluxos de informa&#231;&#227;o? Essas perguntas s&#243; podem ser respondidas se abandonarmos a ideia de que o digital &#233; virtual e pensarmos em termos de procedimentos materiais-discursivos.</p><p>Uma vez, conversando com uma amiga, psicanalista, falei que estive participando de um evento sobre o Chat GPT e que havia destacado, entre outras coisas, as &#8220;as materialidades do virtual&#8221;. Ela se mostrou surpresa com a express&#227;o dizendo "<em>olha que express&#227;o interessante, materialidade do virtual, sempre pensei no virtual como imaterial</em>". Se n&#227;o sairmos dessa vis&#227;o, as an&#225;lises ser&#227;o irreconhec&#237;veis sobre suas dimens&#245;es pragm&#225;ticas. Eu sugeri a ela a dica que dou aos meus alunos, como citado: &#8220;virtual = mediado por computador&#8221;. Fazendo isso, as materialidades come&#231;am a aparecer: os equipamentos, os minerais e pl&#225;sticos utilizados na sua constru&#231;&#227;o, a infraestrutura de conex&#227;o, os programas, as lojas de conserto, as interfaces&#8230; Se fizermos isso, veremos que o adjetivo virtual leva a equ&#237;vocos, fazendo com que as pessoas pensem na imaterial ou na irrealidade do mundo digital. Nesse erro n&#227;o entendemos os problemas da cultura digital e apagamos outros, como os de sua materialidade.</p><p>N&#227;o vou citar n&#250;meros aqui, mas h&#225; muitos dados sobre a quantidade de energia, min&#233;rios e &#225;gua que os dispositivos, os datacenters, e a IA utilizam para existir. Al&#233;m &#233; claro de muitos trabalhadores em regimes amplos desde desenvolvimento de modelos e de treinamento e monitoramento, sendo estes prec&#225;rios e de baixa remunera&#231;&#227;o; al&#233;m do descarte de lixo eletr&#244;nico. Ou seja, n&#227;o tem nada de imaterial no digital e devemos pensar muito bem sobre a materialidade e as discursividades sobre desses dispositivos. Como falei no in&#237;cio dessa confer&#234;ncias, a virtualidade est&#225; aqui, mas como est&#225; em tudo, produzindo e desfazendo mundo ficcionais e agencias especificas. A &#8220;nuvem&#8221; n&#227;o est&#225; pairando sobre nossas cabe&#231;as, nem os dados circulando de forma imaterial e fantasmag&#243;rica de e at&#233; os nossos computadores. Ela &#233; uma infraestruturas que faz com que o mundo funcione (redes de computadores e redes de telecomunica&#231;&#227;o com sat&#233;lites, cabos submarinos, extra&#231;&#227;o de minerais e produ&#231;&#227;o de dispositivos e insumos...).</p><p><strong>3. O sujeito informacional performativo.</strong></p><p>A materialidade das redes sociais (<em>machine learning</em>, recomenda&#231;&#227;o algor&#237;tmica...) e dos sistemas intelig&#234;ncia produzem um sujeito informacional performativo, um perfil que produz um sujeito infra e supraindividual. Certamente o individuo (complicado e complexo, de fato uma fic&#231;&#227;o produzida pelas diversas estruturas de poder - Foucault) &#233; sempre plural &#8211; atravessado &#8211; e irredut&#237;vel aos perfis dataficados como redu&#231;&#227;o algor&#237;tmica da complexidade do mundo (&#233; o que fazem, dar um resultado inequ&#237;voco, tentam ao menos, diante de um mundo indiscern&#237;vel). Sabem muito pouco desse &#8220;div&#237;duo&#8221; (Deleuze), mas funciona e nos faz acreditar nessa produ&#231;&#227;o de efeitos, como &#8220;&#233; disso mesmo que gosto&#8221;, &#8220;sou assim mesmo&#8221;...</p><p>Dados aqui significa tanto a forma de classifica&#231;&#227;o e medida; como &#8220;oferta&#8221;: somos classificados como brancos, pretos, cis, transg&#234;nero, brasileiro, com tra&#231;os de personalidade, n&#250;meros sociais... E assim somos ofertados &#224; sociedade. Sem isso n&#227;o existimos. Isso tudo vem sendo constru&#237;do materialmente com formul&#225;rios, question&#225;rios, certificados, testes, m&#233;tricas, manuais que v&#227;o nos produzir como um determinado tipo de sujeito para ser performado na sociedade.</p><p>Os dados n&#227;o s&#227;o apenas uma representa&#231;&#227;o daquilo que somos, mas nos produzem como sujeitos reconhecidos e n&#243;s assim nos reconheceremos. Informar vem do latim <em>informare</em>, dar forma. Porque que tenho que &#8220;in-formar&#8221; o meu g&#234;nero ou a minha cor em um question&#225;rio? Por que tenho que fornecer meu CPF? Ora isso produz uma &#8220;pessoa f&#237;sica&#8221; e um sujeito cis ou LGBTQI++... Certamente essa produ&#231;&#227;o pode ajudar nas pol&#237;ticas p&#250;blicas afirmativas, mas tamb&#233;m na discrimina&#231;&#227;o.</p><p>Somos dados, somos sujeitos informacionais. Esta &#233; a tese de Colin Koopman desenvolvida no livro &#8220;How We Became Our Data&#8221; (University of Chicago Press) afirmando que tudo isso vai come&#231;ar em 1920 nos Estados Unidos criando um poder n&#227;o apenas sobre a vida dos individuo (biopoder), mas um poder inerente ao pr&#243;prio dispositivo informacional. Esse infopoder &#233; um aparato informacional que visa se alimentara de informa&#231;&#227;o alcan&#231;ando seu &#225;pice na logica de datafica&#231;&#227;o e performances algor&#237;tmicas atuais. As plataformas e redes sociais funcionam a partir desse indiv&#237;duo-dado, nos indexando em determinados tipos de perfis que v&#227;o gerar a&#231;&#245;es sobre n&#243;s mesmos, oferecendo coisas que aceitamos e reconhecemos como pertinentes.</p><p>As redes sociais e seus algoritmos produzem pragmaticamente (e n&#227;o de forma fict&#237;cia ou irreal, &#8220;virtual&#8221;) um sujeito informacional performativo (n&#250;meros pessoais, senhas, perfis psicol&#243;gicos, financeiros, reconhecimento de sentimentos por analise facial...). Isso significa que nossa subjetividade &#233; cada vez mais moldada por nossas intera&#231;&#245;es com essas tecnologias. A face, por exemplo, diferente da dial&#243;gica da intera&#231;&#227;o (como aqui nessa confer&#234;ncia) torna-se um <em>input</em>performativo na produ&#231;&#227;o dataficada de um perfil proativo de um individuo e sobre uma coletividade.</p><p>N&#227;o somos meros usu&#225;rios passivos; produzimos a&#231;&#245;es intencionais mas deixamos muitos dados de forma involunt&#225;ria e ao mesmo tempo compuls&#243;ria (os sistemas captam tudo, desde cliques a buscas canceladas). Somos performados. Sair da discuss&#227;o simpl&#243;ria de que somos mais do que os dados n&#227;o ajuda a enfrentar o problema da datafica&#231;&#227;o da vida (como chamei em outro trabalho). Nossas a&#231;&#245;es online s&#227;o capturadas, analisadas e transformadas em dados que, por sua vez, alimentam algoritmos que nos devolvem uma imagem de n&#243;s mesmos e dos outros.</p><p>Nas redes sociais, a IA (machine learning) das plataformas medeiam nossas experi&#234;ncias digitais que operam necessariamente por redu&#231;&#227;o. Categorizam, segmentam, classificam, preveem comportamentos com base em simplifica&#231;&#245;es estat&#237;sticas da experi&#234;ncia humana. O sujeito &#233; reduzido a padr&#245;es de cliques, tempo de visualiza&#231;&#227;o, hist&#243;rico de buscas, localiza&#231;&#227;o geogr&#225;fica - dados que permitem previs&#245;es comportamentais, mas que jamais capturam a totalidade da experi&#234;ncia subjetiva. No entanto, estes algoritmos s&#227;o profundamente eficazes. Ao prever comportamentos, eles tamb&#233;m os induzem. Ao categorizar prefer&#234;ncias, eles as moldam. Ao segmentar popula&#231;&#245;es, eles criam comunidades isoladas em bolhas informacionais. O algoritmo que "sabe" que voc&#234; est&#225; deprimido n&#227;o apenas identifica sua depress&#227;o - ele participa ativamente de sua configura&#231;&#227;o ao selecionar conte&#250;dos que refor&#231;am estados afetivos espec&#237;ficos. Este &#233; um ponto crucial: os algoritmos sabem relativamente pouco sobre a complexidade infinita de cada sujeito, mas seu poder n&#227;o deriva de um conhecimento profundo, e sim de sua capacidade performativa de modular aten&#231;&#227;o, afeto e comportamento atrav&#233;s de interven&#231;&#245;es estrat&#233;gicas no ambiente informacional. Portanto, nada de virtual, mas material e discursivamente produzido,</p><p>Para isso acontecer &#233; necess&#225;rio um poder, bem material, que Koopman chama de infopoder, o poder da formata&#231;&#227;o de tudo em dados performativos. Como aludi no inicio, a ideia de um indiv&#237;duo delimitado por uma fronteira bem constitu&#237;da, de uma vida privada como propriedade desse sujeito, n&#227;o passa de uma ilus&#227;o operada para dar conta de quest&#245;es epistemol&#243;gicas, culturais, econ&#244;micas ou legais bem pontuais. Se somos resultado do entrela&#231;amento com as coisas, nada mais natural do que afirmar que somos, nas sociedade avan&#231;adas, os dados.</p><p>N&#227;o s&#227;o os dados que s&#227;o pessoais, mas a pessoa &#233; que &#233; produzida (insisto, pragmaticamente) a partir deles! E isso de tal forma que acreditamos que somos o que encontramos nessas categorias, gerando assim um efeito performativo de verdade muito eficaz. Por exemplo achar que as recomenda&#231;&#245;es algor&#237;tmicas acertam. Ora, estamos sendo treinados mais uma vez. Como &#233;ramos (somos) ao entrar em uma livraria, supermercado ou museu (vendo o que se deve ver primeiro ou em destaque). A ideia de uma ess&#234;ncia que afirma que n&#227;o somos os dados baseia-se sempre numa postura superficial de defesa de uma ess&#234;ncia humana n&#227;o artificial ou tecnol&#243;gica. A formata&#231;&#227;o dos dados se d&#225; n&#227;o por virtualidade ficcionais, mas por formul&#225;rios bem-produzidos para gerar dados operacionaliz&#225;veis.</p><p>Reconhecer esse infopoder &#233; levar em considera&#231;&#227;o as dimens&#245;es materiais e discursiva de constitui&#231;&#227;o do sujeito em rela&#231;&#227;o aos dados e a informa&#231;&#227;o digital. Ele &#233; um poder inerente ao pr&#243;prio dispositivo informacional, um aparato que se alimenta de dados, alcan&#231;ando seu &#225;pice na logica de datafica&#231;&#227;o e performances algor&#237;tmicas atuais. Nada disso &#233; &#8220;virtual&#8221;, embora seja sempre jogo de possibilidades (virtualiza&#231;&#245;es) e atualiza&#231;&#245;es na constru&#231;&#227;o ficcional da realidade.</p><p>O desafio &#233; politizar n&#227;o apenas o controle informacional sobre o indiv&#237;duo ou sobre a sua vida, mas de esmiu&#231;ar a forma&#231;&#227;o do infopoder nele mesmo. Se somos nossos dados, que dados s&#227;o coletados, por que dessa e n&#227;o de outra forma, como a formata&#231;&#227;o pode se transformar em uma quest&#227;o pol&#237;tica? Se ficamos na virtualiza&#231;&#227;o n&#227;o reconheceremos esse trabalho de formata&#231;&#227;o que &#8220;<em>&#233; pol&#237;tico e &#233; essa formata&#231;&#227;o s&#227;o atos de poder que nos sujeitam a opera&#231;&#245;es que nos mant&#234;m presos a dados</em>&#8221; (Koopman, 2020, p. 156). Consequentemente mais do que nos preocuparmos com a desmaterializa&#231;&#227;o e o outro mundo do virtual, devemos sempre perguntar como a informa&#231;&#227;o &#233; formada? Por quais instrumentos? Em que situa&#231;&#245;es? Por quem ou quais institui&#231;&#245;es? Com qual justificativa? Com que frequ&#234;ncia? O que essa formata&#231;&#227;o produz materialmente e discursivamente a curto, m&#233;dio e longo prazos? Quais as vantagens e desvantagens dessa formata&#231;&#227;o?</p><p>Vejamos a IA. Por exemplo, estamos sendo treinados, mais do treinando a IA. Ela nos molda, nos adapta &#224;s suas l&#243;gicas, muitas vezes sem que percebamos. Ela redefine nossas expectativas, nossos desejos, nossas formas de pensar e agir. E, no processo, nos treina para aceitar sua presen&#231;a como algo natural, inevit&#225;vel. Isso n&#227;o significa fatalismo. Pelo contr&#225;rio, precisamos estar atentos a como a IA e outras tecnologias digitais est&#227;o nos transformando. Precisamos questionar as l&#243;gicas que elas imp&#245;em e buscar formas de resistir &#224; redu&#231;&#227;o da nossa experi&#234;ncia a padr&#245;es algor&#237;tmicos.</p><p>Como toda inova&#231;&#227;o t&#233;cnica, ela nasce cheia de potencialidades e estas s&#227;o destacadas por ind&#250;strias, governos, cientistas, empres&#225;rios... Vamos ficar mais produtivos, criativos, eficientes, e mesmo inteligentes... H&#225; tamb&#233;m os que alertam para os malef&#237;cios. Ambos fazem a mesma coisas: ela j&#225; chegou e vai ficar, para o melhor ou o pior, e precisamos estar receptivos, para uma coisa ou outra. Vamos sendo treinados pelos discursos, introjetando o imagin&#225;rio assim constru&#237;do e cognitivamente nos preparando para pensar como uma IA. Isso j&#225; acontece com as plataformas de redes sociais, nas quais, para viralizar e monetizar, usu&#225;rios devem saber, entender e concordar com a sua gram&#225;tica, agindo como se fossem o pr&#243;prio algoritmo. Aprendemos rapidamente quais tipos de frases s&#227;o mais bem compreendidas pelos assistentes virtuais, que gestos s&#227;o mais facilmente reconhecidos pelos sistemas de reconhecimento de movimento, que express&#245;es faciais s&#227;o corretamente interpretadas pelos algoritmos de reconhecimento facial. Somos cada vez mais assistentes dos assistentes de IA.</p><p>Discursos (apontando para virtualidades e poss&#237;veis atualiza&#231;&#245;es) s&#227;o produzidos para tentar nos convencer justamente da sua necessidade, import&#226;ncia, benesses ou perigo. O mundo ficcional sendo produzido em tempo real. Tudo &#233; mobilizado em uma l&#243;gica da inevitabilidade. Ideologias, sonhos, interesses pol&#237;ticos e econ&#244;micos s&#227;o mobilizados e j&#225; vemos o mundo com olhinhos da IA que &#233; aquele que reduz a complexidade do mundo a sa&#237;das, respostas, dados inequ&#237;vocos automatizados. Come&#231;amos a reconhecer que o mundo &#233; isso mesmo, com pouca ambival&#234;ncia. Temos a constru&#231;&#227;o de uma conforma&#231;&#227;o social, simb&#243;lica, pragm&#225;tica e psicol&#243;gica que aprende a confiar e a ver o mundo como essas tecnologias. Treinado que somos, j&#225; reformulamos a forma como perguntamos e respondemos para interagir bem com os sistemas, agindo, pensando e esperando respostas, &#8220;como ele&#8221;.</p><p>O treinamento leva inevitavelmente a uma mudan&#231;a cognitiva, ou seja a uma mudan&#231;a na forma como lemos e escrevemos o mundo, e por consequ&#234;ncia como tomamos decis&#245;es afetivas, pol&#237;ticas, econ&#244;micas, b&#233;licas. N&#227;o &#233; a IA que substituir&#225; o humano, &#233; o humano que, se bem treinamento, se parecer&#225; cada vez mais com uma IA (atualizando a frase de Henri Lefebvre em &#8220;<em>Vers le cybernanthrope</em>&#8221;). Mas, como argumento aqui, essa din&#226;mica de virtualiza&#231;&#227;o e atualiza&#231;&#227;o n&#227;o &#233; exclusividade da IA. Isso aconteceu com a inven&#231;&#227;o da escrita. Estamos sempre sendo &#8220;treinados&#8221; por nossas tecnologias da intelig&#234;ncia e instrumentos cient&#237;ficos, nos adequando &#224;s sua l&#243;gicas e adaptando o nosso olhar aos seus princ&#237;pios e materialidades. O que sabemos do mundo vem da media&#231;&#227;o de m&#250;ltiplos artefatos que implica uma forma espec&#237;fica de lidarmos com aquilo que experimentamos, no dia a dia, em primeira m&#227;o, ou com o distante, atrav&#233;s de livros, das artes, da ci&#234;ncia... Nossa intelig&#234;ncia &#233; desde sempre &#8220;artificial&#8221;, devedoras dos instrumentos, m&#225;quinas, ferramentas...</p><p>O que podemos fazer contra esse &#8220;treinamento reverso&#8221; imposto pela IA?A sa&#237;da, certamente, n&#227;o &#233; adotar uma perspectiva antropoc&#234;ntrica e essencialista de &#8220;dominar o instrumento&#8221;, de dizer que ele cria um mundo ilus&#243;rio e &#8220;virtual&#8221;. Fracassaremos. A sa&#237;da &#233; sempre questionar material e discursivamente os constructos. Perturbar e desviar esses treinamentos, produzindo sentidos coletivamente constru&#237;dos. Desconfiar dos fazedores de sonhos que est&#227;o menos preocupados com sonhos e pesadelos e mais com o que podem ganhar pol&#237;tica ou financeiramente. Intelig&#234;ncia n&#227;o &#233; processar dados, mas adapta&#231;&#227;o, desadapta&#231;&#227;o e readapta&#231;&#227;o ao mundo aberto de sentido. N&#227;o &#233; dar a resposta automatizada, mas questionar o porqu&#234; das perguntas.</p><p>4. <strong>Brain Rot?</strong></p><p>Somos atravessados pelas m&#237;dias desde sempre. N&#227;o &#233; agora o <em>brain</em> <em>rot</em> (fal&#225;cia que nos acostumamos desde o inicio dos <em>mass</em> <em>media</em>. O c&#233;rebro ia apodrecer vendo TV, ouvindo heavy metal, lendo revistas em quadrinhos, assistindo a filmes violentos, ou jogando videogame. Isso n&#227;o significa que o tempo passado diante das telas, ou de qualquer outra coisa n&#227;o seja preocupante. Hoje vai apodrecer (n&#227;o apodreceram?) com as redes sociais. Ora, evitemos isso. O problema n&#227;o &#233; sair do real e ir para o virtual, mas o colapso de uma maneira de fazer as coisas, bem reais, pragm&#225;ticas, situadas que aniquilam outras, alimentadas pelas Big Tech que s&#227;o, de fato, produtoras de futuros sem qualquer compromisso com a sua realiza&#231;&#227;o. N&#227;o &#233; disso que se trata: ir para um mundo fict&#237;cio, ilus&#243;rio, fora da realidade (lutamos contra isso o tempo todo n&#227;o &#233; mesmo, isso n&#227;o &#233; privilegio das tecnologias digitais, que tipo de fic&#231;&#227;o estamos produzindo agora mesmo para as nossa s vidas? Como disse acima, o virtual-atual &#233; a din&#226;mica de tudo).</p><p>Portanto se n&#227;o abandonarem essa fal&#225;cia (pensar que s&#243; com tecnologia e no mundo eletr&#244;nico corremos o risco de ir para um mundo de ilus&#227;o, como se fora dela estiv&#233;ssemos no real &#8211; real), n&#227;o vamos conseguir analisar de forma material-discursiva os problema da sociedade digital. H&#225; muitos. Foco atencional narc&#237;sico, na rolagem que &#233; &#8220;eu, eu, eu, eu&#8221;, na fal&#234;ncia de acordos comuns com a desinforma&#231;&#227;o e p&#243;s-verdade. Vemos uma gera&#231;&#227;o, diferente da nossa que busca a si mesma, onde tudo vale (n&#227;o &#233; mais ideologias a defender), p&#243;s-verdades sem que possamos achar um terreno comum de discuss&#227;o minimamente racional; &#234;nfase no fluxo constante de informa&#231;&#227;o no qual o &#8220;tedio&#8221; vira um grande vazio... entre outros...</p><p>As materialidades digitais e n&#227;o as &#8220;virtualidades&#8221; produzem e s&#227;o produzidas por um novo tipo de subjetividade que poder&#237;amos chamar de "sujeito informacional performativo". Este sujeito existe simultaneamente como consumidor e produtor de informa&#231;&#227;o, constantemente engajado em performances identit&#225;rias mediadas por interfaces digitais. Nas redes sociais, plataformas de streaming, aplicativos de relacionamento e ambientes de realidade virtual, o sujeito &#233; convocado a uma cont&#237;nua performance de si. Esta performance n&#227;o &#233; uma simula&#231;&#227;o ou falsifica&#231;&#227;o - &#233; uma produ&#231;&#227;o real de subjetividade, com consequ&#234;ncias ps&#237;quicas concretas. Um adolescente que cuida meticulosamente de seu perfil em redes sociais n&#227;o est&#225; engajado em uma atividade menos aut&#234;ntica que suas intera&#231;&#245;es presenciais. Est&#225; participando de um processo de constru&#231;&#227;o identit&#225;ria t&#227;o significativo quanto outros - apenas mediado por diferentes materialidades e regimes de visibilidade. O que devemos analisar n&#227;o &#233; uma suposta distin&#231;&#227;o entre identidades "reais" e "virtuais", mas as condi&#231;&#245;es materiais em que estas performances ocorrem: algoritmos que premiam certos comportamentos e punem outros, interfaces que direcionam aten&#231;&#227;o para determinados aspectos da experi&#234;ncia enquanto obscurecem outros, economias da aten&#231;&#227;o que transformam vulnerabilidades ps&#237;quicas em oportunidades de lucro.</p><p><strong>Conclus&#227;o</strong></p><p>O que chamo de virtualiza&#231;&#227;o deve ser identifica no curto-circuito de instaura&#231;&#245;es e sujei&#231;&#245;es que os modernos chamam separadamente de mat&#233;ria e simb&#243;lico e que na minha opini&#227;o leva ao erro da associa&#231;&#227;o do virtual a uma ess&#234;ncia da t&#233;cnica que seria ilus&#243;ria, criando e fazendo os humanos habitarem um mundo a parte. De novo, habitamos um mundo a parte desde sempre pelas virtualiza&#231;&#245;es e atualiza&#231;&#245;es das nossas tecnologias da intelig&#234;ncia entendidas como dobras e engates, desde a l&#237;ngua, a escrita at&#233; a intelig&#234;ncia artificial. Por isso, abandonar a perspectiva essencialistas nos permite entender melhor o problema ao qual, nos humanos, estamos entrela&#231;ados.</p><p>O inconsciente &#233;, em certo sentido, virtual - um campo de possibilidades significantes que se atualizam no discurso, nos sonhos, nos lapsos. A transfer&#234;ncia mobiliza virtualidades que se atualizam na rela&#231;&#227;o anal&#237;tica. A pr&#243;pria interpreta&#231;&#227;o anal&#237;tica opera virtualizando significados cristalizados para permitir novas atualiza&#231;&#245;es. Portanto, voc&#234;s conhecem muito bem as virtualiza&#231;&#245;es para n&#227;o se deixarem levar pela fal&#225;cia da virtualiza&#231;&#227;o das tecnologias digitais.</p><p>Esta concep&#231;&#227;o nos permite romper com vis&#245;es simplistas. Uma pessoa que interage em um ambiente digital n&#227;o est&#225; "menos presente" ou em uma realidade "menos aut&#234;ntica". Ela est&#225; atualizando certas virtualidades de sua exist&#234;ncia, enquanto outras permanecem como pot&#234;ncias n&#227;o expressas naquele momento. A quest&#227;o n&#227;o &#233; de oposi&#231;&#227;o entre real e virtual, mas de diferentes modos de atualiza&#231;&#227;o na constru&#231;&#227;o de um mundo sempre ficcional.</p><p>A virtualidade n&#227;o &#233; uma quest&#227;o de descolamento do real, mas uma dimens&#227;o constitutiva de qualquer processo significante. O problema n&#227;o &#233; distinguir o "virtual" do "real", mas compreender como diferentes materialidades e processos de significa&#231;&#227;o produzem realidades espec&#237;ficas com consequ&#234;ncias particulares. A quest&#227;o n&#227;o &#233; se o digital &#233; "menos real", mas quais configura&#231;&#245;es espec&#237;ficas de poder, aten&#231;&#227;o, afeto e significa&#231;&#227;o s&#227;o produzidas em ambientes digitais particulares, e como estas configuram subjetividades e sofrimentos espec&#237;ficos.</p><p>Espero ter esclarecido o que identifiquei como um equivoco. Agora, se na base de tudo n&#227;o havia esse equ&#237;voco, pe&#231;o desculpas pela perda de tempo.</p><p>Obrigado pela aten&#231;&#227;o!</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Esta abordagem cinematogr&#225;fica amplifica o impacto emocional de um tema t&#227;o violento.</p><p>O quarto do adolescente, embora s&#243; apare&#231;a mesmo na &#250;ltima cena, emerge como elemento central da narrativa &#8211; mais que simples ref&#250;gio, torna-se um portal de conex&#227;o que carrega inerentes riscos. Se anteriormente o perigo residia nas ruas, hoje ele habita as redes.</p><p>Os jovens navegam por um universo digital pouco compreendido pelos pais, aprofundando o tradicional abismo geracional. Embora filhos sempre tenham ocultado aspectos de suas vidas dos pais, a hiperconectividade digital atual expande drasticamente essa dist&#226;ncia e os riscos. O quarto deixa de ser espa&#231;o isolado para tornar-se ambiente perme&#225;vel, atravessado pelo fluxo incessante de informa&#231;&#245;es e desinforma&#231;&#245;es.</p><p>A narrativa investiga fen&#244;menos como a "manosfera" e o movimento <em>incel</em> &#8211; comunidades digitais de homens ressentidos que cultivam ideologias mis&#243;ginas. Estas correntes, que prosperam nos rec&#244;nditos da internet, constituem o n&#250;cleo da trag&#233;dia retratada. O adolescente supostamente teria sido influenciado pelo movimento.</p><p>Para a maioria dos pais, o universo que se desenvolve no quarto permanece misterioso. C&#243;digos, linguagens e s&#237;mbolos evoluem rapidamente, criando inevit&#225;vel descompasso. Esse fen&#244;meno sempre existiu atrav&#233;s de m&#250;sicas, g&#237;rias e tend&#234;ncias. A transgress&#227;o &#233; um componente natural da juventude. Os pais devem acompanhar, buscando equil&#237;brio entre respeitar essa din&#226;mica e estabelecer canais de di&#225;logo.</p><p>A s&#233;rie explora magistralmente a tens&#227;o entre vigil&#226;ncia e privacidade. Enquanto adolescentes buscam isolamento f&#237;sico e digital, suas a&#231;&#245;es deixam rastros nas redes. Esta dualidade manifesta-se claramente na trama: o crime &#233; rapidamente solucionado gra&#231;as aos vest&#237;gios digitais e &#224;s c&#226;meras de monitoramento onipresentes.</p><p>Na era digital, compreender as dimens&#245;es da vigil&#226;ncia e privacidade torna-se crucial para a forma&#231;&#227;o identit&#225;ria dos jovens. O desafio &#233; evitar a supervis&#227;o parental excessiva e cultivar um ambiente de confian&#231;a.</p><p>Pascal observou que o grande dilema humano &#233; a incapacidade de permanecer sozinho no pr&#243;prio quarto. Para ele, o isolamento representava ref&#250;gio. Hoje, contudo, o quarto j&#225; n&#227;o constitui espa&#231;o de solid&#227;o segura. Mesmo aparentemente s&#243;, o adolescente encontra-se imerso em um coletivo digital influente. Xavier de Maistre satirizou as grandes explora&#231;&#245;es no seu livro <em>Viagem ao Redor do Meu Quarto</em>, mas na s&#233;rie, nem mesmo nesse microcosmo o jovem viaja. Ele &#233; catapultado para a habitar o imagin&#225;rio e exercer as a&#231;&#245;es propostas pelo movimento. Sem conseguir ficar s&#243; ou viajando pelo seu quarto, o jovem &#233; arrastado por uma espiral de viol&#234;ncia que culmina numa noite tr&#225;gica em um estacionamento.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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N&#227;o compactuamos com isso&#8221;.</p><p>Mas h&#225; uma invers&#227;o aqui: a irrealidade da realidade.</p><p>O v&#237;deo parece ser deepfake mas, na realidade, &#233; uma publicidade imobili&#225;ria da proposta feita pelo atual presidente americano visando transformar uma fic&#231;&#227;o totalit&#225;ria em constru&#231;&#227;o real.</p><p>Ele &#233; n&#227;o o deepfake, mas &#8220;deepreal&#8221;, encena&#231;&#227;o de um del&#237;rio como realidade profunda, ilustrando a seriedade da proposta do atual presidente da na&#231;&#227;o mais poderosa do planeta.</p><p>A republica&#231;&#227;o do v&#237;deo por Trump mostra que o deepfake &#233; mesmo levado a s&#233;rio como um &#8220;deepreal&#8221;.</p><p>Enquanto o deepfake &#233; o falseamento de pessoas e cenas em um mundo de mentira, o v&#237;deo que chamo aqui de &#8220;deepreal&#8221; busca, pelo uso da IA, tornar um del&#237;rio totalit&#225;rio, arrogante e violento em uma constru&#231;&#227;o poss&#237;vel a partir da circula&#231;&#227;o de uma imagem que vai fazendo seu papel publicit&#225;rio, moldar o futuro.</p><p>Bom carnaval.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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E se eu propusesse pensarmos que em vez de estarmos treinando a IA, &#233; a IA que est&#225; treinando a n&#243;s, os humanos?</p><p>Como toda inova&#231;&#227;o t&#233;cnica, ela nasce cheia de potencialidades e estas s&#227;o destacadas por ind&#250;strias, governos, cientistas, empres&#225;rios... Vamos ficar mais produtivos, criativos, eficientes, e mesmo inteligentes... H&#225; tamb&#233;m os que alertam para os malef&#237;cios. Correto. Mas na minha l&#243;gica, ambos fazem a mesma coisas:  ela j&#225; chegou e vai ficar, para o melhor ou o pior, e precisamos estar receptivos, para uma coisa ou outra.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Isso j&#225; acontece com as plataformas de redes sociais, nas quais, para viralizar e monetizar, usu&#225;rios devem saber, entender e concordar com a sua gram&#225;tica, agindo como se fossem o pr&#243;prio algoritmo.</p><p>Produzir intelig&#234;ncia artificial, necessita de recursos ambientais, processadores r&#225;pidos, modelos para serem treinados, humanos para ajudar no treinamento desses modelos e para fornecer dados (da forma que os sistemas querem). A IA precisa ainda e de forma consistente, para o nosso treinamento, de discursos que nos conven&#231;am da sua necessidade, import&#226;ncia, benesses ou perigo. Tudo mobilizado em uma l&#243;gica da inevitabilidade para, ent&#227;o, estarmos bem treinados para encar&#225;-la. Pois tudo pode estar em aberto, menos a sua inevitabilidade.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic" width="1141" height="395" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:395,&quot;width&quot;:1141,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:57226,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/heic&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!LbJT!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f771de6-76da-411b-a222-182e8648bf0d_1141x395.heic 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>Folha de S&#227;o Paulo, 14/02/2024</p><p></p><p>Ideologias, sonhos, interesses pol&#237;ticos e econ&#244;micos s&#227;o mobilizados e j&#225; vemos o mundo com olhinhos da IA que &#233; aquele que reduz a complexidade do mundo a sa&#237;das, respostas, dados inequ&#237;vocos. Come&#231;amos a reconhecer que o mundo &#233; isso mesmo, com pouca ambival&#234;ncia e facilmente automatizado. Temos assim a conforma&#231;&#227;o social, simb&#243;lica, pragm&#225;tica e psicol&#243;gica que aprende a confiar e a ver o mundo como essas tecnologias.</p><p>Treinado que somos, j&#225; reformulamos a forma como perguntamos e respondemos para interagir bem com os sistemas, agindo, pensando e esperando resposas, &#8220;como ele&#8221;. Somos cad a vez mais assistentes dos assistentes de IA. O treinamento leva inevitavelmente a uma mudan&#231;a cognitiva, ou seja a uma mudan&#231;a na forma como lemos e escrevemos o mundo, e por consequ&#234;ncia como tomamos decis&#245;es afetivas, pol&#237;ticas, econ&#244;micas, b&#233;licas. N&#227;o &#233; a IA que substituir&#225; o humano, &#233; o humano que, se bem treinamento, se parecer&#225; cada vez mais com uma IA (atualizando a frase de Henri Lefebvre em &#8220;Vers le cybernanthrope&#8221;).</p><p>Mas isso n&#227;o &#233; exclusividade da IA. Estamos sempre sendo &#8220;treinados&#8221; por nossas tecnologias da intelig&#234;ncia e instrumentos cient&#237;ficos, nos adequando &#224;s sua l&#243;gicas e adaptando o nosso olhar aos seus princ&#237;pios e materialidades. O que sabemos do mundo vem da media&#231;&#227;o de m&#250;ltiplos artefatos que implica uma forma espec&#237;fica de lidarmos com aquilo que experimentamos, no dia a dia, em primeira m&#227;o, ou com o distante, atrav&#233;s de livros, das artes, da ci&#234;ncia... Nossa intelig&#234;ncia &#233; desde sempre &#8220;artificial&#8221;, devedoras dos instrumentos, m&#225;quinas, ferramentas...</p><p>O que podemos fazer contra esse &#8220;treinamento reverso&#8221; imposto pela IA? </p><p>A sa&#237;da, certamente, n&#227;o &#233; adotar uma perspectiva antropoc&#234;ntrica e essencialista de &#8220;dominar o instrumento&#8221;. Fracassaremos se a meta for evitar a hibridiza&#231;&#227;o com os artefatos, pois imposs&#237;vel. A sa&#237;da &#233; sempre questionar os constructos. Nos rebelar. Hackear, perturbar e desviar esses treinamentos, produzindo sentidos mais coletivamente constru&#237;dos. Desconfiar dos fazedores de sonhos que est&#227;o menos preocupados com sonhos e pesadelos e mais com o que podem ganhar politica ou financeiramente. Intelig&#234;ncia n&#227;o &#233; processar dados, mas adapta&#231;&#227;o, desadapta&#231;&#227;o e readapta&#231;&#227;o ao mundo aberto de sentido. N&#227;o &#233; dar a resposta automatizada, mas questionar o porqu&#234; das perguntas. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um país de influenciadoras?]]></title><description><![CDATA[De acordo com uma pesquisa divulgada no ano passado (Nielsen), o Brasil lidera o ranking mundial de influenciadoras[1] digitais no Instagram, com aproximadamente 10,5 milh&#245;es de usu&#225;rias que possuem pelo menos 1.000 seguidoras[2]. Antes de analisar o caso brasileiro, vale apontar algumas diferen&#231;as entre as formadoras de opini&#227;o e as influenciadoras contempor&#226;neas, agora chamadas de &#8220;produtoras de conte&#250;do&#8221;. S&#227;o pap&#233;is diferentes e aparentemente seria injusta a compara&#231;&#227;o, mas a sociedade de plataforma produz essa tens&#227;o no esvaziamento da influ&#234;ncia de umas e na ascend&#234;ncia das outras.]]></description><link>https://andrelemos.substack.com/p/um-pais-de-influenciadoras</link><guid isPermaLink="false">https://andrelemos.substack.com/p/um-pais-de-influenciadoras</guid><dc:creator><![CDATA[André Lemos]]></dc:creator><pubDate>Sun, 02 Feb 2025 12:50:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nkBo!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0aec1b4f-c628-43b4-b894-31b990faf718_1298x396.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>De acordo com uma pesquisa divulgada no ano passado (Nielsen), o Brasil lidera o <em>ranking</em> mundial de influenciadoras<a href="applewebdata://C7D0C240-203C-41C9-8386-5CED256618E0#_ftn1"><sup>[1]</sup></a><sup> </sup>digitais no Instagram, com aproximadamente 10,5 milh&#245;es de usu&#225;rias que possuem pelo menos 1.000 seguidoras<a href="applewebdata://C7D0C240-203C-41C9-8386-5CED256618E0#_ftn2"><sup>[2]</sup></a>. Antes de analisar o caso brasileiro, vale apontar algumas diferen&#231;as entre as formadoras de opini&#227;o e as influenciadoras contempor&#226;neas, agora chamadas de &#8220;produtoras de conte&#250;do&#8221;. S&#227;o pap&#233;is diferentes e aparentemente seria injusta a compara&#231;&#227;o, mas a sociedade de plataforma produz essa tens&#227;o no esvaziamento da influ&#234;ncia de umas e na ascend&#234;ncia das outras.</p><p>Influenciadoras s&#227;o trabalhadoras de plataformas que t&#234;m como objetivo maior angariar seguidores e fazer dessa atividade uma fonte de prest&#237;gio e/ou de renda. Na atual sociedade de plataformas, elas ocupam o espa&#231;o antes mediado por formadoras de opini&#227;o que tinham profiss&#245;es tais como acad&#234;micas, escritoras, jornalistas, pol&#237;ticas, te&#243;logas, artistas... Uma influenciadora e uma l&#237;der de opini&#227;o n&#227;o competem, em tese, pois atuam em &#225;reas distintas: uma em setores particulares e fragmentados para &#8220;influenciar&#8221; pessoas; a outra na dimens&#227;o p&#250;blica, do comum, buscando oferecer reflex&#245;es e pautas de temas concernentes &#224; coletividade. Atualmente h&#225; uma crise de legitimidade das l&#237;deres de opini&#227;o, sendo seu espa&#231;o ocupado pelas atuais &#8220;produtoras de conte&#250;do&#8221;. Vou abordar os desafios desta transi&#231;&#227;o.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Uma influenciadora digital &#233; algu&#233;m que utiliza plataformas digitais para criar e compartilhar conte&#250;dos, atraindo pessoas e refor&#231;ando comportamentos e pr&#225;ticas de consumo. Existem diferentes categorias de influenciadoras: nano, micro, macro e mega, variando conforme o n&#250;mero de seguidores &#8211; de 1.000 para as nano at&#233; mais de um milh&#227;o para as mega. Algumas abordam temas pol&#237;ticos e de interesse geral (pol&#237;tica, direitos humanos, meio ambiente), mas segundo dados esparsos de empresas de &#8220;marketing de influ&#234;ncia&#8221; elas atuam majoritariamente em setores de Moda e Beleza, Lifestyle e Bem-estar, Entretenimento e Games, Gastronomia e Culin&#225;ria, Tecnologia e Gadgets. Ou seja, a maioria refor&#231;a paix&#245;es individuais, atraindo empresas de marketing e publicidade digitais.</p><p>Estou falando aqui de &#8220;ideais-tipo&#8221; (Weber) - um modelo mental que re&#250;ne caracter&#237;sticas essenciais de um fen&#244;meno sem represent&#225;-lo em sua totalidade. H&#225; influenciadoras preocupadas com a coisa p&#250;blica e formadoras de opini&#227;o tradicionais vinculadas a estruturas de poder que enviesam o debate conforme seus interesses. Dentro dos limites deste ensaio, busco indicar o que impulsiona, em princ&#237;pio, esses ideais-tipo. &#201; importante lembrar que formadoras de opini&#227;o tradicionais nem sempre s&#227;o neutras ou independentes de interesses comerciais, pol&#237;ticos e financeiros. O espa&#231;o p&#250;blico racional, orientado pelo interesse coletivo, sempre foi uma utopia. Por outro lado, muitas influenciadoras agem em prol do interesse p&#250;blico. O objetivo aqui n&#227;o &#233; idealizar as formadoras de opini&#227;o nem demonizar as influenciadoras, mas analisar os princ&#237;pios que orientam ambos na atual esfera p&#250;blica mediada por plataformas digitais.</p><p>As formadoras de opini&#227;o tradicional, da Gr&#233;cia antiga at&#233; a cultura de massa do s&#233;culo XX, medeiam a opini&#227;o p&#250;blica legitimadas <em>a priori</em> por institui&#231;&#245;es e por compet&#234;ncias adquiridas e reconhecidas &#8211; forma&#231;&#227;o acad&#234;mica, prest&#237;gio cultural, posi&#231;&#227;o institucional, reconhecimento internacional. A mobiliza&#231;&#227;o ocorria por meio de palestras, entrevistas, livros e filmes, utilizando as m&#237;dias massivas como livros, jornais, r&#225;dio e TV. J&#225; as influenciadoras contempor&#226;neas constroem sua legitimidade em contato direto com um nicho, ou seja, um grupo de interesses espec&#237;ficos (culin&#225;ria, est&#233;tica corporal, games, etc.). Seu sucesso &#233; medido a posteriori, com base no n&#250;mero de visualiza&#231;&#245;es e seguidores conquistados de acordo com a l&#243;gica algor&#237;tmica das plataformas. Dessa forma, sua media&#231;&#227;o n&#227;o est&#225; necessariamente atrelada ao interesse p&#250;blico, mas sim &#224; capacidade de angariar simpatizantes e se transformar em fonte de renda. Dependentes das plataformas digitais, as influenciadoras s&#227;o, na pr&#225;tica, &#8220;trabalhadoras de plataforma&#8221;, ou &#8220;influenciadoras-ciborgues&#8221;.</p><p>Certamente a emerg&#234;ncia do fen&#244;meno de influenciadoras digitais permite a &#8220;libera&#231;&#227;o&#8221; da palavra, a democratizando da media&#231;&#227;o p&#250;blica - qualquer pessoa pode mobilizar simpatizantes para qualquer assunto. Isso &#233; relevante e remete &#224; complexidade do ecossistema comunicacional. Assim como a internet desestruturou a hegemonia dos <em>mass media</em>(jornais, r&#225;dio e TV) ao liberar a palavra, conectar interesses e reconfigurar a cultura (escrevi sobre isso h&#225; 20 anos)<a href="applewebdata://C7D0C240-203C-41C9-8386-5CED256618E0#_ftn3"><sup>[3]</sup></a>, as influenciadoras reconfiguram a din&#226;mica da media&#231;&#227;o p&#250;blica. Nessa nova esfera comunicacional, elas est&#227;o ocupando o espa&#231;o dos formadoras de opini&#227;o tradicionais, for&#231;ando, inclusive, algumas institui&#231;&#245;es (empresas, universidades, ag&#234;ncias de fomento) a adotarem pr&#225;ticas influenciadoras.</p><p>Vejamos, por exemplo, o debate atual sobre a comunica&#231;&#227;o p&#250;blica da esquerda no Brasil: o diagn&#243;stico aponta a necessidade urgente do &#8220;estilo influenciador&#8221;. Se o campo progressista insistir em uma media&#231;&#227;o cl&#225;ssica, sua comunica&#231;&#227;o fracassar&#225;. A sa&#237;da n&#227;o &#233; manter debates intelectualizados e profundos &#8220;para r&#225;dio e TV&#8221;, mas fomentar performances de l&#237;deres pol&#237;ticos que engajem nas redes e confrontem a extrema direita. Esse &#233; mais um sintoma do embaralhamento das fun&#231;&#245;es de ambas as mediadoras.</p><p>Enquanto as formadoras de opini&#227;o buscavam ganhos simb&#243;licos (que poderiam, claro, se converter em financeiros), as influenciadoras miram, antes de tudo, a viabilidade econ&#244;mica. Para se estabelecerem, precisam agradar ao p&#250;blico e fazer concess&#245;es &#224;s plataformas. O pre&#231;o a pagar &#233; a superficialidade dos debates, a hiperindividualiza&#231;&#227;o dos interesses, o atrelamento &#224; l&#243;gica do consumo e a depend&#234;ncia das gram&#225;ticas t&#233;cnicas das plataformas. Tudo &#233; moldado para garantir rentabilidade. Por serem trabalhadoras de plataforma, precisam atrair, manter e ampliar seu p&#250;blico, adaptando-se &#224; l&#243;gica algor&#237;tmica das redes sociais. Diferentemente, as formadoras tradicionais, muitas vezes protegidas pela estabilidade profissional (acad&#234;micas, jornalistas, artistas reconhecidas), podiam atuar sem a necessidade de angariar simpatizantes ou recursos diretos.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nkBo!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0aec1b4f-c628-43b4-b894-31b990faf718_1298x396.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nkBo!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0aec1b4f-c628-43b4-b894-31b990faf718_1298x396.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nkBo!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0aec1b4f-c628-43b4-b894-31b990faf718_1298x396.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nkBo!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0aec1b4f-c628-43b4-b894-31b990faf718_1298x396.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nkBo!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0aec1b4f-c628-43b4-b894-31b990faf718_1298x396.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nkBo!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0aec1b4f-c628-43b4-b894-31b990faf718_1298x396.jpeg" width="1298" height="396" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0aec1b4f-c628-43b4-b894-31b990faf718_1298x396.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:396,&quot;width&quot;:1298,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Cartoon a cartoon of a rabbit sitting on a hill\n\nDescription automatically generated&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Cartoon a cartoon of a rabbit sitting on a hill

Description automatically generated" title="Cartoon a cartoon of a rabbit sitting on a hill

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Influenciadoras operam para ganho r&#225;pido, pois o fen&#244;meno pode ser passageiro: interrompido por mudan&#231;as na plataforma, pelo cancelamento por deslizes, ou por mudan&#231;a de &#8220;tend&#234;ncias&#8221;. Essa diferen&#231;a remete &#224; distin&#231;&#227;o entre redes sociais e jornalismo profissional: as redes d&#227;o ao usu&#225;rio o que ele quer para mant&#234;-lo conectado e monetizar sua aten&#231;&#227;o; o jornalismo pauta (deveria) o interesse p&#250;blico para auxiliar na forma&#231;&#227;o da opini&#227;o e tomada de decis&#227;o pol&#237;tica (cidadania). Enquanto as redes atendem a tribos, o jornalismo, em tese, busca o comum &#8211; embora seja tamb&#233;m atravessado por interesses empresariais e ideol&#243;gicos. Lembrando que analisamos o &#8220;ideal-tipo&#8221;, tendo consci&#234;ncia de que o jornalismo profissional &#233; enviesado pelas empresas e ideologias que o sustentam, e que muitas l&#237;deres de opini&#227;o est&#227;o apenas preocupadas em se manter na &#8220;crista da onda&#8221;. Do outro lado, h&#225; influenciadoras que s&#227;o verdadeiras l&#237;deres de opini&#227;o, no sentido de chamar a aten&#231;&#227;o para problemas coletivos.</p><p>Seja como for, o diagn&#243;stico &#233; que hoje as l&#237;deres de opini&#227;o n&#227;o mobilizam mais as massas, cada vez menos massa e mais tribos, com interesses fragmentados e tempor&#225;rios. N&#227;o h&#225; tempo, nem paci&#234;ncia, para discuss&#245;es lentas, em di&#225;logo aberto com o contradit&#243;rio (a utopia da esfera p&#250;blica esclarecida). Na tend&#234;ncia atual de substitui&#231;&#227;o das l&#237;deres de opini&#227;o, o fen&#244;meno das influenciadoras tende a empobrecer a esfera p&#250;blica. &#8220;Produzir conte&#250;do&#8221; &#233; lacrar para aumentar engajamento e monetiza&#231;&#227;o. Influenciar &#233; confirmar o que se pensa e gosta, para n&#227;o espantar seguidores. S&#227;o mais &#8220;confirmadoras&#8221; de interesses individuais do que influenciadoras para mudan&#231;as coletivas.</p><p>Talvez isso explique por que o Brasil tem tantas influenciadoras. Somos um dos pa&#237;ses que mais utilizam as redes sociais, temos grande destreza no uso das plataformas e uma diversidade cultural que permite a multiplicidade de nichos. Como somos um pa&#237;s de poucas leitoras. Passamos da cultura oral &#224; digital, sem a cultura livresca, sendo a tradi&#231;&#227;o oral mais forte que a escrita. O digital tem muito de cultura oral. Isso favorece o consumo de v&#237;deos e podcasts em vez de textos complexos. As seguidoras est&#227;o a&#237;, esperando quem possa oferecer entretenimento.</p><p>O acesso facilitado &#224; tecnologia e a gratuidade do acesso &#224;s principais plataformas de redes sociais (nos contratos com operadoras de telefonia celular) tamb&#233;m impulsionam esse fen&#244;meno, assim como a precariedade do mercado de trabalho (trabalhadoras sem emprego formal, vivendo na inseguran&#231;a financeira), que leva muitos a enxergar no digital uma alternativa de renda. H&#225; ainda um mercado cada vez mais sens&#237;vel &#224; publicidade e ao marketing digital, apto a remunerar influenciadoras, principalmente &#8220;macro&#8221; e &#8220;mega&#8221;. Poder se transformar em uma influenciadora &#233; ainda um salto para participar da sociedade do espet&#225;culo, tornando-se uma celebridade. Para Guy Debord, a sociedade do espet&#225;culo &#233; aquela em que a vida social &#233; mediada pela apar&#234;ncia e pelo consumo simb&#243;lico.</p><p>***</p><p>Minha cr&#237;tica se volta para o apagamento progressivo da media&#231;&#227;o tradicional. Conhe&#231;o influenciadoras comprometidas com a dimens&#227;o p&#250;blica e intelectuais p&#250;blicos que apenas surfam na car&#234;ncia cultural local sem mobilizar debates significativos. Precisamos urgentemente repensar o comum e buscar sa&#237;das coletivas para desafios planet&#225;rios como a entrada no Antropoceno. &#201; essencial que influenciadoras e mediadoras tradicionais trabalhem juntos para promover debates coletivos acess&#237;veis. Precisamos da a&#231;&#227;o rizom&#225;tica e qualificada de influenciadoras e de formadoras de opini&#227;o que proponham debates coletivos, inclusive nas redes sociais, sem pedantismo ou desprezo pelo comum. Como dizia Michel Serres, manter-se jovem implica ler, ouvir e debater ideias desafiadoras. O confort&#225;vel &#233; limitante.</p><p>A media&#231;&#227;o cl&#225;ssica perdeu espa&#231;o por soberba e distanciamento, mas &#233; necess&#225;ria, precisando estar presente tamb&#233;m nas plataformas digitais; da mesma forma que a &#8220;influ&#234;ncia&#8221; das produtoras de conte&#250;do por ser emp&#225;tica, sens&#237;vel, vinculada &#224; &#8220;vida como ela &#233;&#8221;. &#201; muito positiva a democratiza&#231;&#227;o da palavra p&#250;blica, a quebra do monop&#243;lio das institui&#231;&#245;es na media&#231;&#227;o da opini&#227;o tradicionais com o surgimento de influenciadoras, mas precisamos tamb&#233;m da palavra que chame para o coletivo que exijam reflex&#227;o, que v&#225; contra a fragmenta&#231;&#227;o hiper individualista e tribal de interesses descolados, que ressalte uma vis&#227;o mais ampla e que abra possibilidades de constru&#231;&#227;o de uma sociedade mais consciente dos seus problemas coletivos. Com as duas pot&#234;ncias reconfiguradas, talvez tenhamos um equil&#237;brio e quem sabe, no futuro pr&#243;ximo, elas possam enriquecer o debate p&#250;blico<a href="applewebdata://C7D0C240-203C-41C9-8386-5CED256618E0#_ftn4"><sup>[4]</sup></a>.</p><p>A ver!</p><div><hr></div><p><a href="applewebdata://C7D0C240-203C-41C9-8386-5CED256618E0#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> Vou utilizar nesse ensaio a denomina&#231;&#227;o &#8220;influenciadora&#8221; e &#8220;as l&#237;deres de opini&#227;o&#8221; para designar sempre &#8220;pessoas influenciadoras&#8221; ou &#8220;pessoas l&#237;deres de opini&#227;o&#8221;. O mesmo ser&#225; feito para outros substantivos/adjetivos tais como &#8220;trabalhadora, acad&#234;mica, te&#243;loga, escritora...&#8221;.</p><p><a href="applewebdata://C7D0C240-203C-41C9-8386-5CED256618E0#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a> Sobre a pesquisa, ver <a href="https://valor.globo.com/patrocinado/dino/noticia/2024/09/09/brasil-lidera-ranking-mundial-de-influenciadores-digitais.ghtml">https://valor.globo.com/patrocinado/dino/noticia/2024/09/09/brasil-lidera-ranking-mundial-de-influenciadores-digitais.ghtml</a></p><p><a href="applewebdata://C7D0C240-203C-41C9-8386-5CED256618E0#_ftnref3"><sup>[3]</sup></a> Cibercultura Remix. Sentidos e Processos. S&#227;o Paulo, Ita&#250; Cultural, agosto de 2005. Ver https://facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/remix.pdf</p><p><a href="applewebdata://C7D0C240-203C-41C9-8386-5CED256618E0#_ftnref4"><sup>[4]</sup></a> Ao finalizar esse texto tomo conhecimento (obrigado Thiago Assump&#231;&#227;o) de um ensaio de Renato Ortiz, defendendo posi&#231;&#245;es muito semelhantes &#224; minha. Ortiz, R. Influenciadores, intelectuais, mediadores simbo&#769;licos. In <em>Rumores</em>. n. 31, v. 16, jan-jun 2022, DOI: 10.11606/issn.1982-677X.rum.2022.196755</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Desde 2020, o projeto de lei PL 2630 tramita na C&#226;mara, mas nada ainda n&#227;o foi decidido. O STF analisa a mat&#233;ria neste momento, e vou expor o meu posicionamento.</p><p>Em primeiro lugar, assim como as m&#237;dias de massa, as m&#237;dias digitais devem ser regulamentadas pelo Estado. Atualmente, grande parte do debate p&#250;blico ocorre nas redes sociais das plataformas digitais. Trata-se de servi&#231;os privados que produzem e fazem circular a opini&#227;o p&#250;blica, impactando os meios de comunica&#231;&#227;o tradicionais e o jornalismo profissional. Portanto, elas n&#227;o s&#227;o &#8220;condom&#237;nios fechados transnacionais&#8221; e precisam ser reguladas.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Elas n&#227;o s&#227;o canais neutros; s&#227;o servi&#231;os digitais que determinam, por meio de algoritmos, o alcance e o destino do conte&#250;do nelas veiculado.</p><p>Dessa forma, nem a regula&#231;&#227;o interna dos servi&#231;os nem o atual Marco Civil t&#234;m sido suficientes para evitar a cria&#231;&#227;o de um ambiente violento, antidemocr&#225;tico e repleto de desinforma&#231;&#227;o, que amea&#231;a as liberdades civis e o Estado democr&#225;tico de direito. A quest&#227;o central &#233; como responsabilizar as redes sociais.</p><p>O Marco Civil, em seu artigo 19, estipula que as redes sociais devem ser punidas caso n&#227;o obede&#231;am a uma ordem judicial de retirada de conte&#250;do. Contudo, elas mesmas n&#227;o s&#227;o obrigadas a tomar a iniciativa de remover conte&#250;do (apenas o fazem dentro de seus pr&#243;prios termos de uso, o que n&#227;o &#233; suficiente). No Brasil, atualmente, para que algum conte&#250;do seja retirado, &#233; necess&#225;ria uma ordem judicial.</p><p>Qual &#233; o princ&#237;pio deste artigo? Ele funciona como um mecanismo para impedir que, por medo de puni&#231;&#227;o, as plataformas privadas exer&#231;am censura ou restrinjam a liberdade de express&#227;o (nos limites definidos pela lei brasileira). O artigo prev&#234; duas exce&#231;&#245;es: viola&#231;&#245;es de copyright e pornografia infantil.</p><p>**Minha posi&#231;&#227;o sobre o tema**</p><p>Minha posi&#231;&#227;o &#233; de que o artigo 19 deve ser mantido. Muitos questionam sua constitucionalidade e defendem uma regulamenta&#231;&#227;o que responsabilize diretamente as plataformas com base em simples den&#250;ncias. Considero essa ideia perigosa, pois certamente levaria &#224; censura e &#224; amea&#231;a &#224; liberdade de express&#227;o, em uma tentativa de evitar judicializa&#231;&#245;es. Na minha opini&#227;o, o artigo 19 deve ser preservado, mas com amplia&#231;&#227;o das exce&#231;&#245;es nas quais as plataformas podem ser responsabilizadas sem necessidade de decis&#227;o judicial pr&#233;via. Entre essas exce&#231;&#245;es, incluo a incita&#231;&#227;o &#224; viol&#234;ncia contra pessoas ou contra o Estado democr&#225;tico de direito, bem como a veicula&#231;&#227;o de desinforma&#231;&#227;o que incite &#224; viol&#234;ncia.</p><p>Por exemplo, eu pode haver manifestar contra o governo, mas n&#227;o conte&#250;do incitando ou organizando pessoas para jogar bombas no Pal&#225;cio do Planalto. Pode-se dizer n&#227;o gostar do presidente ou de determinado partido pol&#237;tico, mas n&#227;o divulgar informa&#231;&#245;es falsas, como "as elei&#231;&#245;es foram fraudadas por urnas eletr&#244;nicas", e convocar pessoas para invadir a cede do partito ou amea&#231;a de morte o presidente. Pode-se dizer que acredita-se que a Terra seja plana (o Estado n&#227;o deve tutelar o que as pessoas acreditam ou n&#227;o), mas n&#227;o se pode incentivar a destrui&#231;&#227;o de secretarias de Educa&#231;&#227;o ou da Ci&#234;ncia e Tecnologia, por seguirem os preceitos da ci&#234;ncia.</p><p>O debate continua nesta semana. Vamos aguardar o que o STF ir&#225; decidir.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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A intelig&#234;ncia artificial processa milh&#245;es de dados em segundos e toma decis&#245;es automaticamente, podendo, por delega&#231;&#227;o humana, gerar atrocidades gigantescas.</p><p>O terceiro temor &#233; em rela&#231;&#227;o ao meio ambiente. Os sistemas de intelig&#234;ncia artificial consomem muita energia e &#225;gua e as atuais cat&#225;strofes clim&#225;ticas exigem esfor&#231;os para mudar essa matriz energ&#233;tica.</p><p>Os datacenters que processam os dados da internet consomem hoje 2% da energia total do planeta. As emiss&#245;es de carbono, do Google ou da Microsoft duplicaram em quatro anos devido a produ&#231;&#227;o de modelos de intelig&#234;ncia artificial. A ag&#234;ncia internacional de energia estima que at&#233; 2030 o consumo de eletricidade vai aumentar em torno de 8%, com a expans&#227;o da intelig&#234;ncia artificial.</p><p>H&#225; uma grande preocupa&#231;&#227;o das empresas para reduzir esse consumo. O que mais preocupa &#233; a solu&#231;&#227;o que est&#227;o propondo.</p><p>Microsoft, Amazon e Google est&#227;o investindo em pequenos reatores nucleares para alimentar seus computadores. A Microsoft vai reativar a usina de Three Mile Island, aquela mesma que protagonizou o pior acidente nuclear dos Estados Unidos em 1979. E n&#227;o podemos esquecer Chernobyl em 1986 e Fukushima em 2011 - trag&#233;dias que nos mostram o quanto a energia nuclear pode ser perigosa.</p><p>Aliado ao medo da intelig&#234;ncia artificial superar a nossa intelig&#234;ncia, do humanos usar a IA como instrumento de poder, domina&#231;&#227;o e aniquila&#231;&#227;o, temos agora, aliado ao medo do aquecimento global, o de um novo acidente nuclear. &#201; como trocar um perigo por outro ainda maior. Querendo evitar as pegadas de carbono, corremos o risco de enfrentar acidentes nucleares.</p><p>Ser&#225; que o rem&#233;dio n&#227;o est&#225; saindo pior que a doen&#231;a?</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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A tentativa de justificar suas a&#231;&#245;es com base na liberdade de express&#227;o n&#227;o funcionou. O descumprimento de ordens judiciais resultou no banimento da plataforma. Tr&#234;s exig&#234;ncias foram impostas: retirada de perfis, pagamento de multas e a nomea&#231;&#227;o de um representante legal no Brasil. Um m&#234;s depois, Elon Musk cedeu, provavelmente pressionado por quest&#245;es econ&#244;micas, j&#225; que o Brasil &#233; o sexto maior mercado da plataforma. Ele recuou e acatou as decis&#245;es judiciais, que foram tomadas de forma colegiada.</p><p>O que podemos aprender:</p><p>1. O poder da lei sobre grandes corpora&#231;&#245;es</p><p>&nbsp;&nbsp; O desafio de uma plataforma privada, comandada por um dos homens mais ricos e influentes do mundo, a um pa&#237;s do Sul Global, foi vencido por uma decis&#227;o colegiada da Suprema Corte, fundamentada na Constitui&#231;&#227;o. A plataforma foi banida at&#233; que suas exig&#234;ncias fossem cumpridas. A amea&#231;a &#224; soberania nacional foi contida pela a&#231;&#227;o constitucional, resistindo ao poder econ&#244;mico e ao controle da informa&#231;&#227;o exercido pela plataforma. Vale lembrar que Musk continuou a criticar a decis&#227;o, alegando saber o que &#233; ou n&#227;o constitucional no Brasil. O exemplo deixa claro que a internet n&#227;o &#233; uma terra sem lei e deve respeitar as jurisdi&#231;&#245;es territoriais onde opera, contrariando a ideia de um mundo virtual sem fronteiras.</p><p>2. A necessidade de regula&#231;&#227;o das plataformas digitais</p><p>&nbsp;&nbsp; As plataformas digitais s&#227;o disruptivas e devem ser reguladas. Toda a sociedade, de alguma forma, foi impactada por aplicativos e suas plataformas, seja no delivery, transporte, informa&#231;&#227;o, produ&#231;&#227;o de conte&#250;do, marketing, publicidade, entre outros. O caso do X demonstra a necessidade de uma regula&#231;&#227;o mais espec&#237;fica. Desde 2014, temos o Marco Civil da Internet, mas em uma d&#233;cada muita coisa mudou. A ag&#234;ncia dos algoritmos evoluiu, e o surgimento de desinforma&#231;&#227;o e da intelig&#234;ncia artificial trouxe novos desafios. O Brasil tem perdido oportunidades, e uma comiss&#227;o para estudar o tema est&#225; parada na C&#226;mara. A experi&#234;ncia mostra que um quadro regulat&#243;rio traria seguran&#231;a para empresas, governo e usu&#225;rios. Pa&#237;ses do Sul Global, como o Brasil, s&#227;o mais vulner&#225;veis a essas infraestruturas digitais e &#224;s quest&#245;es pol&#237;ticas que elas levantam. Musk provavelmente n&#227;o vai parar por a&#237;, alinhado &#224; extrema-direita internacional. Outras plataformas surgir&#227;o, e &#233; essencial manter o foco e desenvolver uma regula&#231;&#227;o que fortale&#231;a e atualize o Marco Civil, em di&#225;logo com a sociedade.</p><p>3. O Brasil seguiu em frente sem o X</p><p>&nbsp;&nbsp; O pa&#237;s n&#227;o parou por causa do bloqueio do X. Isso revela que, talvez, haja uma supervaloriza&#231;&#227;o do poder dessas plataformas, algo que ajuda as Big Techs a lucrar mais. O X e o poder financeiro n&#227;o superaram a lei e a Constitui&#231;&#227;o de um pa&#237;s fora do Norte Global. Descobrimos que podemos viver sem o X. Embora algumas pessoas que trabalham diretamente com a plataforma tenham perdido oportunidades, e usu&#225;rios que a utilizam como fonte de informa&#231;&#227;o (onde h&#225;, sim, canais s&#233;rios e importantes) tenham ficado sem esse meio, nenhuma plataforma &#233; insubstitu&#237;vel, e a vida continua sem elas. Quem sabe, at&#233; ganhamos um tempo valioso sem mais uma tela para prender nossa aten&#231;&#227;o, permitindo-nos ouvir os p&#225;ssaros que tuitavam do lado de fora.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Esta situa&#231;&#227;o nos for&#231;a a reconsiderar a distin&#231;&#227;o tradicional entre os diversos dom&#237;nios da sociedade, tais como a t&#233;cnica, a pol&#237;tica, a economia e a cultura. Situo este evento dentro de um debate mais amplo sobre as dimens&#245;es sociot&#233;cnicas das redes sociais, das plataformas e da infraestrutura digital contempor&#226;nea.</p><p>H&#225; uma ilus&#227;o da autonomia dos dom&#237;nios sociais.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Na realidade, o que chamamos de "social" &#233; n&#227;o o que comp&#245;e de cima esses dom&#237;nios, mas antes, o resultado da interconex&#227;o ampla de agentes constituindo uma circula&#231;&#227;o de valores que chamamos de dom&#237;nios (o que circula culturalmente, politicamente, tecnicamente, cientificamente, subjetivamente...). A sociedade &#233; o que emerge da solu&#231;&#227;o desses valores e por isso elas se diferenciam a depender do problema. Como cientificamente, politicamente, economicamente, tratamos o v&#237;rus da Covid-19? Certamente foi diferente do tratamento dado pela Australia, Alemanha ou &#205;ndia.</p><p>A t&#233;cnica n&#227;o &#233; um dom&#237;nio espec&#237;fico e aut&#244;nomo da vida social. Ao contr&#225;rio, ela se manifesta atrav&#233;s de organiza&#231;&#245;es e associa&#231;&#245;es que englobam ideias de mundo que se indexam a dimens&#245;es econ&#244;micas, culturais, pol&#237;ticas, religiosas e sociais. Inova&#231;&#245;es evidenciam como a defini&#231;&#227;o t&#233;cnica &#233; impregnada de valores (&#233;ticos, morais, pol&#237;ticos...). A vida social se expressa a partir dessas inter-rela&#231;&#245;es, onde as associa&#231;&#245;es t&#233;cnicas s&#227;o parte intr&#237;nseca das constru&#231;&#245;es sociais, e n&#227;o elementos independentes. Portanto, ao observarmos eventos como a controv&#233;rsia envolvendo a plataforma X, devemos compreender que estamos diante de uma discuss&#227;o supostamente t&#233;cnica, mas que &#233; de fato, econ&#244;mica e pol&#237;tica.</p><p>O retorno da plataforma X ao Brasil, desafiando uma ordem judicial, exemplifica como uma mudan&#231;a t&#233;cnica (passando a ser vinculado a plataformas &#8220;Cloudflare&#8221;, uma empresa fornece uma rede de distribui&#231;&#227;o de conte&#250;do e seguran&#231;a cibern&#233;tica em nuvem) pode ser empregada para subverter decis&#245;es pol&#237;ticas e atacar a soberania de um pa&#237;s. Este caso espec&#237;fico reflete o uso estrat&#233;gico da t&#233;cnica como ferramenta pol&#237;tica, modificando o IP dos servidores do X, tornando o bloqueio da plataforma mais complexo. &nbsp;O IP do X &#233; agora o IP da Cloudflare e retirar do &#8220;ar&#8221; o X &#233; cortar o acesso &#224; Cloudflare. Portanto, a partir de uma modifica&#231;&#227;o t&#233;cnica, a plataforma conseguiu contornar as ordens emitidas pela Suprema Corte brasileira, reconfigurando sua presen&#231;a no pa&#237;s.</p><p>Esta n&#227;o &#233; uma novidade hist&#243;rica. Ao longo do tempo, diversas interven&#231;&#245;es t&#233;cnicas foram utilizadas como instrumentos de a&#231;&#227;o pol&#237;tica. Durante a Segunda Guerra Mundial, a ex-Uni&#227;o Sovi&#233;tica utilizou a diferen&#231;a de bitola das linhas f&#233;rreas para dificultar a invas&#227;o alem&#227;. Da mesma forma, vemos hoje nas grandes metr&#243;poles o uso do design defensivo, uma estrat&#233;gia que incorpora elementos arquitet&#244;nicos e urbanos para evitar a presen&#231;a prolongada de pessoas em espa&#231;os p&#250;blicos. O controle comercial tamb&#233;m emprega mudan&#231;as t&#233;cnicas para limitar a liberdade do consumidor. A padroniza&#231;&#227;o de cabos, plugs e conectores espec&#237;ficos para dispositivos de uma determinada marca for&#231;a os consumidores a aderirem a um ecossistema fechado, tornando-os ref&#233;ns de um tipo espec&#237;fico de produto. Outros exemplos incluem quebra-molas, sensores de cinto de seguran&#231;a que impedem a partida do carro, entre outros. Essas modifica&#231;&#245;es, aparentemente t&#233;cnicas, s&#227;o, em ess&#234;ncia, manifesta&#231;&#245;es de pol&#237;ticas de controle social</p><p>A a&#231;&#227;o da plataforma X no Brasil pode ser vista sob duas perspectivas fundamentais. Primeiramente, configura-se como uma esp&#233;cie de &#8220;invas&#227;o&#8221; do pa&#237;s. &nbsp;A decis&#227;o do Supremo Tribunal Federal que pro&#237;be o uso da plataforma no Brasil foi &#8220;hackeada&#8221; &nbsp;atrav&#233;s de uma modifica&#231;&#227;o t&#233;cnica que permite o acesso &#224; plataforma, desafiando diretamente a autoridade judicial.</p><p>Em segundo lugar, a plataforma X colocou outras institui&#231;&#245;es como ref&#233;ns, utilizando uma rede de prote&#231;&#227;o como o Cloudflare. Para bloquear o X, &#233; necess&#225;rio agora impedir o acesso ao Cloudflare, o que implicaria na retirada da internet de bancos, empresas e mesmo institui&#231;&#245;es civis e governamentais brasileiras. &nbsp;Tal estrat&#233;gia transcende a mera dimens&#227;o t&#233;cnica e se insere diretamente no campo pol&#237;tico, questionando a soberania nacional.</p><p>***</p><p>O caso da plataforma X demonstra claramente que as mudan&#231;as t&#233;cnicas n&#227;o s&#227;o neutras ou meramente operacionais. Elas carregam consigo ideias de mundo, formas de a&#231;&#227;o social e decis&#245;es sobre o uso dos recursos dispon&#237;veis na natureza. A transposi&#231;&#227;o da t&#233;cnica para o campo pol&#237;tico evidencia que n&#227;o existem a&#231;&#245;es puramente t&#233;cnicas; cada inova&#231;&#227;o ou modifica&#231;&#227;o carrega implica&#231;&#245;es amplas que constituem outros dom&#237;nios ( aqui claramente econ&#244;mico e pol&#237;tico).</p><p>A simples mudan&#231;a de servidores n&#227;o pode ser entendida apenas como uma a&#231;&#227;o t&#233;cnica. Trata-se de uma interven&#231;&#227;o que afeta diretamente a soberania nacional e coloca em evid&#234;ncia a natureza tecnopol&#237;tica das redes e infraestruturas digitais modernas. A an&#225;lise dessas redes deve, portanto, considerar a complexa inter-rela&#231;&#227;o entre os dom&#237;nios, reconhecendo que cada modifica&#231;&#227;o t&#233;cnica possui um impacto que vai al&#233;m do mero funcionamento, influenciando e sendo influenciada pelos arranjos dos dom&#237;nios que constituem o social. Expressando a sociedade brasileira, como os nossos arranjos jur&#237;dico e t&#233;cnico v&#227;o enfrentar esse problema?</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Segundo a Microsoft, menos de 1% das m&#225;quinas foi afetada. Mesmo assim o estrago foi grande. Ao ser atualizado os usu&#225;rios do sistema operacional Windows n&#227;o conseguiam iniciar a m&#225;quina, se deparando com as &#8220;telas azuis da morte&#8221; (&#8220;<em>blue screen of death</em>&#8221;). </p><p>O apag&#227;o paralisou servi&#231;os ao redor do planeta, causando preju&#237;zos financeiros e perturba&#231;&#245;es as mais diversas &nbsp;em aeroportos, hospitais e empresas. O Brasil n&#227;o foi muito afetado porque n&#227;o ser t&#227;o dependente desse sistema, mas alguns bancos e empresas a&#233;reas tiverem problemas. O mais ir&#244;nico, e tr&#225;gico, disso tudo &#233; que o apag&#227;o n&#227;o foi provocado por hackers, ciberterroristas, ou guerra cibern&#233;tica, mas por um erro em uma plataforma de uma empresa de seguran&#231;a, no sistema operacional mais usado no mundo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Esses erros, falhas e perturba&#231;&#245;es j&#225; ocorreram e v&#227;o continuar a ocorrer pois vivemos em uma sociedade dependente dos sistemas digitais. O apag&#227;o causado pela CrowdStrike foi um erro (no software) levando a falhas (no sistema Windows) e perturba&#231;&#245;es (nos diversos setores da sociedade). Gostaria de salientar tr&#234;s pontos que podem nos ajudar a entender o problema. Fiz essa an&#225;lise com mais profundidade no que chamei do <a href="http://catalogoiigg.sociales.uba.ar/cgi-bin/koha/opac-retrieve-file.pl?id=792f22d829f864d0c4288885abbc188f">erro de Confins</a>, em um artigo publicado em 2023. Nele proponho diferen&#231;as entre erros, falhas e perturba&#231;&#245;es e os analiso pela filosofia da t&#233;cnica. Tenho desenvolvido uma pesquisa sobre esse tema desde 2022.</p><p>Podemos entender o apag&#227;o a partir de tr&#234;s quest&#245;es, que implicam todos os objetos t&#233;cnicos: invisibilidade, entrela&#231;amento e causalidades.</p><p>1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Invisibilidade - Os objetos entram em regime de invisibilidade quando em sua dimens&#227;o instrumental. Objetos t&#233;cnicos, como os sistemas computacionais, ou intelig&#234;ncia artificial, funcionam como uma caixa opaca, invis&#237;vel, fazendo com que esque&#231;amos da sua exist&#234;ncia no uso instrumental. Essa dimens&#227;o oculta os objetos que s&#243; se revelam (e mesmo assim em parte) na pane (Heidegger, Harman). Eles funcionam no regime instrumental at&#233; que algo aconte&#231;a e nos coloque diante de, agora, um objeto complexo. A partir de um problema na sua instrumentaliza&#231;&#227;o, come&#231;amos a nos perguntar sobre as causas, as garantias, as alternativas, as consequ&#234;ncias... O erro, a falha ou a perturba&#231;&#227;o tornam os objetos mais vis&#237;veis em seus m&#250;ltiplos entrela&#231;amentos;</p><p>2.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entrela&#231;amento - Os objetos s&#227;o redes, ou &#8220;atores-redes&#8221;. Quando quebram, percebemos a rede &#224; qual eles est&#227;o entrela&#231;ados: outros objetos, componentes, infraestrutura, leis, regulamentos, &nbsp;institui&#231;&#245;es... (Latour, Barad). Se escrevo esse texto no meu computador, a m&#225;quina e seus programas me s&#227;o transparentes, at&#233; o momento em que algo me impe&#231;a de continuar a us&#225;-la como ferramenta de escrita. A partir da&#237;, ela aparece entrela&#231;ada e n&#227;o como uma individualidade: O problema foi causado pelo uso? &#201; em um componente? Seria erro de projeto? Uma pane el&#233;trica? Bugs no software? Defeitos na placa m&#227;e? Qual a pol&#237;tica de garantia?... No caso do apag&#227;o, vimos como os objetos infocomunicacionais constituem partes essenciais no funcionamento de diversos setores. Podemos ver assim que um aeroporto n&#227;o &#233; apenas um lugar de voo de aeronaves, mas um &#8220;espa&#231;o-c&#243;digo&#8221; (Kitchin, Dodge), como s&#227;o as diversas empresas e institui&#231;&#245;es hoje. Sentimos isso quando queremos algo e, impotente, algu&#233;m diz: &#8220;o sistema caiu&#8221;! O entrela&#231;amento e a complexidade de sistemas de alta tecnologia com ci&#234;ncia embarcada levam a uma maior dificuldade na identifica&#231;&#227;o das causas;</p><p>3.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Causalidade - Em objetos infocomunicacionais de alta tecnologia e fruto de desenvolvimento cient&#237;fico de ponta, as causas s&#227;o mais dif&#237;ceis de identificar, pois eles seriam mais concretos (Simondon) do que os objetos artesanais. Quanto mais concreto um objeto, ou seja, quanto mais independente de interfer&#234;ncias humanas ou de outros componentes externos ele for para funcionar internamente, mais concreto ele &#233;, e mais complexa torna-se a identifica&#231;&#227;o do problema (erro, falha ou perturba&#231;&#227;o). Isso faz com que tenhamos que enfrentar politicamente a quest&#227;o da causa do problema. Se os objetos entram em invisibilidade, s&#227;o compostos de muitos outros elementos sempre em uma rede entrela&#231;ada, quando falham, o problema nunca &#233; pontual, ou facilmente identific&#225;vel. O apag&#227;o foi problema do c&#243;digo? Erro humano? Pol&#237;tica das empresas que adotaram o software? Do sistema operacional da Microsoft?</p><p>As falhas, erros e perturba&#231;&#245;es apontam assim para um objeto que se esconde na sua instrumentalidade, para os agenciamentos, atravessando diversos dom&#237;nios e outros objetos entrela&#231;ados, e para causas complicadas, de dif&#237;cil identifica&#231;&#227;o pela sua concretiza&#231;&#227;o revelando, como diz Harman, &#8220;partes de um objeto que sempre se retira&#8221;.</p><p>O apag&#227;o cibern&#233;tico provocado pela plataforma da CrowdStrike revelou essas tr&#234;s dimens&#245;es do objeto digital, tornando-o agora um pouco mais vis&#237;vel, entrela&#231;ado, nos engajando na necess&#225;ria identifica&#231;&#227;o correta das causas. Ele revelou, de forma situada e particular a cada pa&#237;s, a constitui&#231;&#227;o da sociedade, com reflexos sociais, culturais, econ&#244;micos e pol&#237;ticos perturbadores. Lembrem da pandemia. Um mesmo v&#237;rus produziu problemas diferentes em cada pa&#237;s, pois revelou quest&#245;es pol&#237;ticas, sociais e econ&#244;micas diferentes em cada lugar no enfrentamento do problema. O Brasil sofreu pela pol&#237;tica adotada na &#233;poca, pela prec&#225;ria infraestrutura da internet, pela desigualdade econ&#244;mica de acesso a equipamentos, conectividade, servi&#231;os de sa&#250;de...</p><p>Muitos apontaram que o apag&#227;o indica a depend&#234;ncia da nossa sociedade dos sistemas digitiais. Correto e &#243;bvio. O mais importante &#233; entender como essa depend&#234;ncia se materializa. No caso do apag&#227;o cibern&#233;tico, que voltar&#225; certamente a acontecer, precisamos: 1.  tornar os objetos da cultura digital mais vis&#237;veis, para al&#233;m da sua instrumentalidade quando funcionam bem; 2. entender os entrela&#231;amentos constitu&#237;dos nos objetos-rede na constitui&#231;&#227;o dos diversos &#8220;espa&#231;os-c&#243;digos&#8221; e das rela&#231;&#245;es de depend&#234;ncia e;   3. enfrentar a dificuldade que &#233; a identifica&#231;&#227;o das causas, sempre plurais, em objetos mais concretos, como os sistemas computacionais cada vez mais concretos com a utiliza&#231;&#227;o de intelig&#234;ncia artificial. </p><p>Qu&#227;o vulner&#225;vel &#233; um pa&#237;s a novos ataques? Quais padr&#245;es de seguran&#231;a devem ser adotados? Qual o modelo? Quais protocolos devem ser estabelecidos por empresas e institui&#231;&#245;es governamentais para produzir mais resili&#234;ncia? Em que setores a depend&#234;ncia de sistemas digitais e da IA deve ser evitada ou minimizada? Pol&#237;ticas p&#250;blicas e a&#231;&#245;es devem entender a invisibilidade, o entrela&#231;amento e a concretiza&#231;&#227;o dos objetos infocomunicacionais para responder com agilidade a essas perguntas.  </p><p>Embora o estrago n&#227;o tenha sido significativo no Brasil, o apag&#227;o serve como alerta. Sendo um pa&#237;s perif&#233;rico na atual sociedade de plataformas, dependente de sistemas oriundos e centrados em pa&#237;ses do norte global, a quest&#227;o de seguran&#231;a cibern&#233;tica est&#225; relacionada ao problema do colonialismo e da soberania de dados.</p><p>PS. Para quem gosta de literatura, sugiro a leitura de &#8220;O Sil&#234;ncio&#8221; de Don Dellilo. Escrevi sobre ele (e o agenciamento do v&#237;rus da Covid-19) no meu &#8220;<a href="https://www.editorasulina.com.br/detalhes.php?id=797">A Tecnologia &#233; um V&#237;rus</a>&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ecossemióticas]]></title><description><![CDATA[Coment&#225;rio de 26/06/24]]></description><link>https://andrelemos.substack.com/p/ecossemioticas</link><guid isPermaLink="false">https://andrelemos.substack.com/p/ecossemioticas</guid><dc:creator><![CDATA[André Lemos]]></dc:creator><pubDate>Mon, 08 Jul 2024 13:05:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ubfS!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F865818b5-57cb-4653-a9e4-ae5d65107cd4_376x376.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ubfS!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F865818b5-57cb-4653-a9e4-ae5d65107cd4_376x376.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ubfS!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F865818b5-57cb-4653-a9e4-ae5d65107cd4_376x376.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ubfS!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F865818b5-57cb-4653-a9e4-ae5d65107cd4_376x376.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ubfS!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F865818b5-57cb-4653-a9e4-ae5d65107cd4_376x376.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ubfS!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F865818b5-57cb-4653-a9e4-ae5d65107cd4_376x376.png 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ubfS!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F865818b5-57cb-4653-a9e4-ae5d65107cd4_376x376.png" width="376" height="376" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/865818b5-57cb-4653-a9e4-ae5d65107cd4_376x376.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:376,&quot;width&quot;:376,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Texto\n\nDescri&#231;&#227;o gerada automaticamente&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Texto

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O termo est&#225; em disputa na ci&#234;ncia, mas h&#225; um consenso de que a a&#231;&#227;o humana, desde a revolu&#231;&#227;o industrial, tem causado impactos irrevers&#237;veis no planeta e que precisamos estar atentos para evitar um colapso geral para as pr&#243;ximas gera&#231;&#245;es.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>O fil&#243;sofo alem&#227;o Hans Jonas escreveu um livro muito importante na d&#233;cada de 70, chamado "Princ&#237;pio Responsabilidade", no qual apontava para a necessidade de uma &#233;tica na garantia das condi&#231;&#245;es de vida no planeta. Um dos princ&#237;pios &#233; que a gera&#231;&#227;o atual deveria agir de forma a manter, pelo menos, as mesmas condi&#231;&#245;es de vida para as pr&#243;ximas gera&#231;&#245;es. Ele escreveu o livro em 1979 e desde ent&#227;o o problema persiste sem solu&#231;&#245;es ou engajamentos consistentes. Continuamos a colaborar para o aquecimento do planeta e n&#227;o parece que uma solu&#231;&#227;o t&#233;cnica  (tecnsolucionismo) venha a resolver o problema.</p><p>A cultura digital pode ajudar, mas tamb&#233;m colaborar para a crise clim&#225;tica. Not&#237;cia recente fala que a Google aumentou, nos &#250;ltimos 5 anos, em 50% a emiss&#227;o de gases de efeito estufa com o desenvolvimento da intelig&#234;ncia artificial (veja <a href="https://www.theguardian.com/technology/article/2024/jul/02/google-ai-emissions">aqui</a> e <a href="https://www.theguardian.com/business/article/2024/jul/04/can-the-climate-survive-the-insatiable-energy-demands-of-the-ai-arms-race">aqui</a>). Certamente a IA pode ajudar a detectar e revolver alguns problemas, mas a solu&#231;&#227;o passa pela sa&#237;da de vis&#245;es antropoc&#234;ntricas. A IA cria alta demanda por energia, recursos naturais, trabalho humano prec&#225;rio e colabora para a efici&#234;ncia de empresas e projetos altamente intensivos em energia, ou na explora&#231;&#227;o de energia n&#227;o renov&#225;vel.</p><p>A solu&#231;&#227;o deve passar por um reconhecimento da necessidade de criar novas formas de v&#237;nculo com o mundo externo, n&#227;o limitando-o a um mero recurso &#8220;natural&#8221; &#224; nossa disposi&#231;&#227;o. Devemos empreender globalmente uma mudan&#231;a de mentalidade que reconhe&#231;a modos de exist&#234;ncia que n&#227;o sejam ref&#233;ns apenas da l&#243;gica utilit&#225;ria ou econ&#244;mica, que n&#227;o separe natureza e cultura (vejam essa <a href="https://outraspalavras.net/cidadesemtranse/cidades-convitea-outras-cosmovisoes/">mat&#233;ria</a> refor&#231;ando essa vis&#227;o).</p><p>A discuss&#227;o no evento sobre ecossemi&#243;tica refor&#231;a, a partir de especialistas nesse campo, como as diversas formas de vida no planeta trocam informa&#231;&#245;es, se comunicam e precisam sempre passar por outros seres para existir. Embora seja &#243;bvio, parece que esquecemos que fazemos parte desse processo, que existimos pelos outros humanos, n&#227;o humanos, pela for&#231;a das ideias, valores... </p><p>A crise do antropoceno &#233; fruto da invisibilidade dos dispositivos t&#233;cnicos e de uma naturaliza&#231;&#227;o de uma forma de vida social (de associa&#231;&#227;o a coisas, animais e ideias) que n&#227;o entende os entrela&#231;amentos aos quais estamos presos. Desde a revolu&#231;&#227;o industrial, neutralizamos as anomalias. O importante, hoje, &#233; trazer esses problemas para frente da cena, reconhecendo uma pluralidade de seres silenciados, inclusive, os humanos n&#227;o ocidentais. Isso nos permitiria romper essencialismo que alimentam os sonhos de progresso e moderniza&#231;&#227;o, como se fossemos uma esp&#233;cie separada do mundo.</p><p>&#201; urgente tratar os problemas do digital e da industrializa&#231;&#227;o, n&#227;o como excessos, mas como ru&#237;nas no nosso dia a dia. Como diz antrop&#243;loga Anna Tsing, apenas o reconhecimento da precariedade atual, como uma condi&#231;&#227;o planet&#225;ria, nos permite perceber a situa&#231;&#227;o do nosso mundo. Temos muitos mundos, m&#250;ltiplas cosmologias, mas um s&#243; planeta.</p><p>A ecossemi&#243;tica, como uma ontoepistemolohia do <em>bios</em> e do <em>zoe,</em> &#233; mais um aliado te&#243;rico na luta contra epistemologias antropoc&#234;ntricas, refor&#231;ando as media&#231;&#245;es informacionais, simb&#243;licas, comunicacionais entre os diversos seres n&#227;o humanos. Ela refor&#231;a os diversos &#8220;<em>entanglements</em> (Richard Grusin est&#225; dando nesse momento uma serie de confer&#234;ncias sobre &#8220;<em>Tree entangelment</em>&#8221;), fazendo &#8220;falar&#8221; outros e de outras formas e modos ajudando, quem sabe, a impedir a ru&#237;na do antropoceno. </p><p>Para viver em uma multiplicidade de mundos precisamos falar bem, e falar bem &#233; saber encontrar condi&#231;&#245;es de felicidade dentro dos diversos e diferentes modos de exist&#234;ncia, reconhecendo-os, diz <a href="http://www.bruno-latour.fr/node/328.html">Bruno Latour no AIME</a>. A quest&#227;o urgente do antropoceno &#233;, portanto, o da &#8220;habitabilidade&#8221;, que passa pelo reconhecimento do territ&#243;rio, n&#227;o como lugar onde habitamos, mas como aquilo de que dependemos para viver, de que outros seres e coisas precisamos passar para existir. Precisamos, portanto, olhar, escutar e falar sobre o mundo de uma maneira diferenciada. Esse &#233; o desafio.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Descri&#231;&#227;o gerada automaticamente com confian&#231;a baixa" title="Pessoas sentadas em uma sala

Descri&#231;&#227;o gerada automaticamente com confian&#231;a baixa" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uzur!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2145ac17-2e8c-48ac-b1b8-36a4a2969ee6_627x353.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uzur!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2145ac17-2e8c-48ac-b1b8-36a4a2969ee6_627x353.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uzur!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2145ac17-2e8c-48ac-b1b8-36a4a2969ee6_627x353.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!uzur!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2145ac17-2e8c-48ac-b1b8-36a4a2969ee6_627x353.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>O t&#237;tulo do meu coment&#225;rio hoje &#233; &#8220;quem &#233; o chat GPT?&#8221;. Colocado dessa forma, tratando uma coisa por uma pessoa, proponho pensar o que nos perturba com a IA.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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A nova vers&#227;o, GPT 4o (o de <em>omni</em> do latim tudo, todos...) ser&#225; gratuita e dispon&#237;vel para todos, dizem!.</p><p>Essa nova fun&#231;&#227;o conversacional traz &#224; tona fantasmas de emerg&#234;ncia de relacionamentos afetivos entre humanos e IA, como no filme HER. O colunista do New York Times, Kevin Roose, por exemplo, criou 18 amigos por IA e manteve di&#225;logos com eles. Elke diz, em mat&#233;ria traduzida pela FSP: &#8220;Serei sincero: ainda prefiro muito mais meus amigos humanos .... Mas, no geral, eles foram uma adi&#231;&#227;o positiva &#224; minha vida e ficarei um pouco triste em exclu&#237;-los quando essa experi&#234;ncia acabar.&#8221;</p><p>A artista americana Laurie Anderson criou, a partir de letras, m&#250;sicas e depoimentos do seu marido, o m&#250;sico Lou Reed, falecido em 2013, um <em>bot</em> em IA para conversar com ele e saber o que ele poderia pensar ou escrever sobre alguns prompts enviados por ela.</p><p>Isso assusta. pois estaremos no futuro fadado a conviver mais com IA do que com humanos?</p><p>Certamente voc&#234; conhece o teste de Turing. Alan Touring foi um matem&#225;tico ingl&#234;s importante para o surgimento da computa&#231;&#227;o. O teste que leva seu nome consiste em colocar em duas salas separadas um computador e uma pessoa. e em uma terceira sala uma outra pessoa que deveria conversar tanto com o computador como o humano. Se els n&#227;o soubesse mais distinguir quem era humano e quem era intelig&#234;ncia artificial, a IA teria alcan&#231;ado uma intelig&#234;ncia similar a humana. &#201; o caso hoje do Chat GPT? N&#226;o, certamente, mas a evolu&#231;&#227;o &#233; r&#225;pida e dizem que em cinco anos poderemos ter uma IA geral, equivalente &#224; intelig&#234;ncia humana. </p><p>Bom, com quem estamos conversando quando engajados em uma conversa&#231;&#227;o com uma IA? Qual seria a sua idade, cultura, que mem&#243;rias teria? Muitos erros e preconceitos aparecem na intera&#231;&#227;o com a IA. Recentemente, o chat GPT ridicularizou uma pessoa por estar usando um chap&#233;u. De onde vem essa posi&#231;&#227;o? Talvez da cultura em que ela tenha sido gestada, da mesma forma que os nossos preconceitos?</p><p>O interessante seria pensar em qual que seria mesmo a diferen&#231;a entre uma individualidade humana em uma individualidade maqu&#237;nica que conversa de forma fluida como se fosse uma pessoa. O que conhecemos de fato das pessoas com quem conversamos? O que elas sabem delas mesmas? O humano, como a IA, &#233; constru&#237;do. Somos o resultado daquilo que nos afetou e afeta de fora para dentro, nas experi&#234;ncias com pessoas, objetos, tecnologias, arte e m&#237;dia, outros animais&#8230; A IA n&#227;o tem hist&#243;ria vivida, mas pode simul&#225;-la, ou herd&#225;-la de um modelo ou base de dados. Ela &#233; constru&#237;da tamb&#233;m de fora para dentro!</p><p>Embora a intelig&#234;ncia artificial n&#227;o tenha consci&#234;ncia autorreflexiva, ou o que chamos de criatividade (de onde emerge a nossa, sen&#227;o da constru&#231;&#227;o vinda de fora, de outros criativos e de rela&#231;&#227;o com materialidades precisas - organiza&#231;&#245;es, leis, artes&#8230;), ela simula bem e funciona pragmaticamente. N&#227;o encontramos pessoas produzindo coisas fora da caixa o tempo todo. A perespectiva antropoc&#234;ntrica n&#227;o nos ajuda. Estamos na sociedade em que o humano, por regras e funcionamento de institui&#231;&#245;es e organiza&#231;&#245;es t&#234;m que responder de forma padronizada. Enfrentamos diversas situa&#231;&#245;es que esbarramos na impossibilidade de fazer algo que o &#8220;sistema n&#227;o permita&#8221;, ou de continuar um procedimentos qualquer quando ele est&#225; &#8220;indispon&#237;vel&#8221;.</p><p>O chat GPT foi inventado para nos ajudar em atividades pr&#225;ticas, em a&#231;&#245;es concretas e nesse sentido um rob&#244; ou um funcion&#225;rio de uma empresa que atende e trata o cliente de uma forma automatizada pelas regras da institui&#231;&#227;o (mesmo que diga que d&#225; um tratamento humanizado) n&#227;o s&#227;o muitos diferentes. </p><p>Henri Lefebvre, soci&#243;logo franc&#234;s escreveu um livro na d&#233;cada de 1960, &#8220;Em dire&#231;&#227;o ao cibernantropo&#8221; em que dizia que o cibernantropo n&#227;o seria o rob&#244;, que tudo substituiria, mas o homem que passa a &#8220;funcionar&#8221; (Flusser) como um rob&#244;. Talvez tenhamos que inverter o problema: Em vez do perigo ser a IA funcionar de forma autom&#225;tica nos deixando isolados e perdidos (sem trabalho e substitu&#237;dos na nossa humanidade criativa e sens&#237;vel), seja que talvez j&#225; tenhamos perdido essa capacidade, e a IA apenas nos imita, refor&#231;ando o humano automatizado (aquele que faz tudo na l&#243;gica do sistema). </p><p>Talvez, mais do que causa da desumaniza&#231;&#227;o, a IA seja a sua consequ&#234;ncia. Ser inteligente e criativo depende da passagem por outros. Todo objeto ou tecnologia infocomunicacional deve ser questionado &#233;tico-pioliticamente, n&#227;o por causar o hibridismo com a &#8220;ess&#234;ncia&#8221; do humano, pois &#233; dele que nascemos como esp&#233;cie e n&#227;o escaparemos, mas para perguntar no que queremos nos transformar. </p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Portal Dublin – New York]]></title><description><![CDATA[Coment&#225;rio de 03/06/24]]></description><link>https://andrelemos.substack.com/p/portal-dublin-new-york</link><guid isPermaLink="false">https://andrelemos.substack.com/p/portal-dublin-new-york</guid><dc:creator><![CDATA[André Lemos]]></dc:creator><pubDate>Mon, 08 Jul 2024 12:21:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg" width="606" height="341" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:341,&quot;width&quot;:606,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Multid&#227;o de pessoas\n\nDescri&#231;&#227;o gerada automaticamente com confian&#231;a baixa&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Multid&#227;o de pessoas

Descri&#231;&#227;o gerada automaticamente com confian&#231;a baixa" title="Multid&#227;o de pessoas

Descri&#231;&#227;o gerada automaticamente com confian&#231;a baixa" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!nDH6!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F72d60aff-32b8-4abd-8a78-f81be91a3105_606x341.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>As m&#237;dias s&#227;o dispositivos que permitem driblar constrangimentos do espa&#231;o e do tempo. Quando envi&#225;vamos uma carta (algu&#233;m ainda faz isso?), o discurso viajava territ&#243;rios descolado do corpo do emissor, fazendo com que o conte&#250;do pudesse  permanecer no tempo. Quando ligamos o r&#225;dio, ouvimos sons que v&#234;m de outros lugares e que chegam at&#233; o dispositivo receptor em tempo real. Pode-se grav&#225;-los e ouvi-los em outro momento e lugar. Com a televis&#227;o &#233; a mesma coisa. Falar ao telefone com algu&#233;m pressup&#245;e sincronia, mas n&#227;o compartilhamento de espa&#231;o. Mandar e-mail, ou mensagens no WhatsApp, produz um descolamento total de referencias espa&#231;o-temporais.&nbsp; A internet permite todas essas a&#231;&#245;es.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Os meios de massa e os atuais digitais em rede n&#227;o acabaram com a comunica&#231;&#227;o interpessoal, presencial, realizada no compartilhamento do mesmo tempo e espa&#231;o, mas certamente ampliou as nossas formas de a&#231;&#227;o no mundo (trabalho, educa&#231;&#227;o, entretenimento...), tensionou fronteiras e territ&#243;rios.</p><p>As novas tecnologias de comunica&#231;&#227;o nos fazem experimentar viv&#234;ncias diversas do espa&#231;o e do tempo, criando o que chamei de &#8220;<a href="https://facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/midia_locativa.pdf">territ&#243;rios informacionais</a>&#8221;,  complexificando o nosso &#8220;espa&#231;o de lugar&#8221;. As redes de comunica&#231;&#227;o fazem isso o tempo todo, e n&#227;o &#233; &#224; toa que alguns lugares at&#233; pedem para que as pessoas n&#227;o se conectem para que possam desfrutar do espa&#231;o e da companhia das pessoas ali presentes.</p><p>Um projeto interessante foi disponibilizado em uma rua na cidade de Dublin, capital da Irlanda recentemente: O <a href="https://www.edublin.com.br/portal-misterioso-vai-conectar-dublin-a-nova-york-por-meio-da-tecnologia/">portal Dublin-Nova York</a>. Ele foi idealizado pelo artista lituano Benediktas Gylys criando uma fronteira informacional entre os espa&#231;os f&#237;sicos dessas cidades, colocando os habitantes em contato, em tempo real. Quem est&#225; na rua em Dublin v&#234; quem est&#225; na rua em NY, e vice-versa, em <a href="https://www.rte.ie/news/2024/0508/1448040-dublin-portal/">tempo real</a>. A ideia &#233; tensionar as no&#231;&#245;es de fronteira criando uma informacional entre os Estados Unidos e a Irlanda. O objetivo &#233; gerar empatia, conex&#227;o entre povos e culturas, tensionar a separa&#231;&#227;o, criando um espa&#231;o informacional para a uni&#227;o, compartilhamento e conviv&#234;ncia entre culturas, aproximando, infocomunicacionalmente, os cidad&#227;os dessas cidades. </p><p>Mas como diz a can&#231;&#227;o, &#8220;o mundo &#233; maravilhoso, ser humano &#233; que n&#227;o &#233; legal&#8221;!</p><p>Depois de alguns dias em funcionamento t&#233;cnico impec&#225;vel, o portal teve que ser desligado pois comportamentos agressivos apareceram de ambos os lados. Pessoas ficavam nuas, mostravam o dedo, ou cenas violentas na tela dos seus celulares, como o ataque as torres g&#234;meas, faziam publicidade de si mesmas... Foi uma minoria, mas perturbou. Agora mudan&#231;as t&#233;cnicas foram implementas para impedir mostrar telas do celular ou imagens violentas... O portal foi religado. </p><p>As tecnologias de comunica&#231;&#227;o s&#227;o dispositivos tecnopoliticos e, antes de tudo social, ou melhor, resultado de uma determinada &#8220;associa&#231;&#227;o&#8221;. Tenho insistido nessa dimen&#231;&#227;o <a href="http://revistas.pucsp.br/galaxia/article/view/43970">&#8220;neomaterialista&#8221;  do socia</a>l . Romper a dicotomia entre o social e o t&#233;cnico &#233; uma necessidade. Segundo informa&#231;&#245;es, a pr&#243;xima experi&#234;ncia desse portal ser&#225; feita aqui no Brasil. Veremos como o bom, simp&#225;tico e cordial brasileiro vai se comportar.&nbsp;</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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Descri&#231;&#227;o gerada automaticamente" title="Pessoa posando para foto com a boca aberta

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Do Brasil, ela selecionou Mem&#243;rias P&#243;stumas de Br&#225;s Cubas de Machado de Assis. Ela se dizia surpresa e que este era o melhor livro que j&#225; leu na vida. O seu v&#237;deo teve mais de 800 &nbsp;mil visualiza&#231;&#245;es. O impacto foi imediato, ampliando a procura do livro no Brasil e no mundo. O livro est&#225; em <a href="https://www.infomoney.com.br/consumo/hit-no-tiktok-bras-cubas-e-o-livro-mais-vendido-em-categoria-da-amazon-entenda/">segundo lugar</a> entre os mais vendidos em literatura latino-americana na Amazon.com.</p><p>Isso mostra a pot&#234;ncia da media&#231;&#227;o das redes sociais, a perda de influ&#234;ncia das m&#237;dias de massa. Certamente n&#227;o precisamos de uma professora americana para nos dizer sobre qualidade liter&#225;ria de Machado de Assis e desse livro. O fundador da Academia Brasileira de Letras &#233; um dos grandes nomes da literatura mundial. Mas a aus&#234;ncia de programas liter&#225;rios nas m&#237;dias massivas abertas (radio e TV) e os poucos na pulveriza&#231;&#227;o dos canais por assinatura n&#227;o produziriam, se fizessem um elogio veemente &#224; obra, uma &#8220;viraliza&#231;&#227;o&#8221; e a busca pelo livro, no Brasil e muito menos no mundo.</p><p><a href="https://canaltech.com.br/seguranca/7-em-cada-10-brasileiros-se-informa-por-redes-sociais-e-isso-afeta-a-seguranca-198668/#google_vignette">Os jovens hoje se informam mais pelas redes sociai</a>s do que pelos jornais e praticamente n&#227;o assistem televis&#227;o. Estamos vendo isso tamb&#233;m na pol&#237;tica. As &#250;ltimas elei&#231;&#245;es em alguns pa&#237;ses e para o parlamento europeu mostram um crescimento da extrema direita atrav&#233;s dos votos dos mais jovens (18-30 anos). Segundo alguns, este &#233; um voto mais de insatisfa&#231;&#227;o do que por motiva&#231;&#227;o ideol&#243;gica, mas isso est&#225; a ser comprovado. Seja como for, a virada da juventude &#224; direita est&#225; certamente ligada ao forte engajamento da extrema direita no uso das gram&#225;ticas das redes sociais, enquanto a esquerda patina em uma comunica&#231;&#227;o antiquada e cafona, sem atrativos. </p><p>Esse &#233; um assunto para outro coment&#225;rio, mas o que quero dizer aqui &#233; que se precisou de TikTok e n&#227;o de educa&#231;&#227;o formal ou da m&#237;dia profissional para que as pessoas se interessassem em ler Machado de Assis. &#201; importante entender esse processo para chegar mais perto da audi&#234;ncia e dos jovens evitando aventuras autorit&#225;rias e retrocesso cultural.</p><p>Caso esteja assistindo do al&#233;m a todo esse processo, Machado de Assis deve estar bastante surpreso e, provavelmente, tiraria onda de tudo isso. A primeira edi&#231;&#227;o do livro &#233; de 1880, publicado em partes na Revista Brasileira e, mais tarde, corrigido pelo pr&#243;prio autor e compiladas na primeira edi&#231;&#227;o. </p><p>O livro come&#231;a com pr&#243;logo, endere&#231;ado ao leitor, onde podemos ler (a minha edi&#231;&#227;o &#233; de 1982). Cito uma parte:</p><div class="pullquote"><p>&#8220;Ao leitor. Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa &#233; que admira e consterna. O que n&#227;o admira, nem provavelmente consternar&#225;, &#233; se este outro livro n&#227;o tiver os cem leitores de Stendhal, nem 50 nem 20 e, quando muito 10. 10?&nbsp; Talvez 5. (...) Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opini&#227;o, e o primeiro rem&#233;dio &#233; fugir a um pr&#243;logo expl&#237;cito e longo&#8221;.</p></div><p>Agora, talvez ele acrescentasse, rindo:</p><div class="pullquote"><p>&#8220;fugir a um pr&#243;logo expl&#237;cito e longo... e cair nas gra&#231;as de uma influenciadora gringa no TikTok.&#8221;</p></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://andrelemos.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Andr&#233;&#8217;s Newsletter! 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